joão sem dona

o amanhecer é uma transa preguiçosa
no apartamento minimalista de Santa Teresa
rachaduras na parede de gesso
pedaços de pintura descascada
janela enorme que abre pra rua
paralelepípedos hexagonais encaixados
no quebra-cabeça de dois corpos
ao som da Tulipa e gosto dos cigarros
recém apagados no cinzeiro de porcelana
falta café filtrado na cozinha
e eu nua na sala de estar
folheio dos livros de shibari e Niemeyer
o sotaque da planície brasiliense

o amanhecer é um caro atraso
em troca de beijos e roteiros de cinema

longos rios em dia de chuva

ali arraigada minha pele pelas suas mãos
um manancial correndo as veias
correnteza extrema que navega
suores no contrafluxo climático
arranhando as margens digitais
eu sei você como um desenho de rio
enquanto me percorre aos olhares
me beija os afluentes até a nascente
escorro e você me preenche

brinde à insanidade nua

as folhas secas na garrafa molhada
te tomei minha sede às pressas
as unhas na sua pele
eu rasgando minha garganta
arrancamos as peças de preocupação
passado e futuro desfizeram-se líquidos
só uma dose de presente
despimos os medos
tu me deste sua ansiedade pra guardar na bolsa
eu te dei minha depressão pra guardar no bolso
jogamos nossas insalubridades e bebemos
do copo do desejo

maré de ipanema

pela primeira vez
fazia sol no Rio
e eu não te vi
antes de partir
fiquei sem beijos
pra guardar no bolso
entendi, meu amor
o rio de janeiro
em janeiro azul
não tem vínculo
com esse tesão
que tivemos sempre
mas ainda assim
existe tesão no mar
e a maré está alta
não está pra peixe
nem mesmo banho
mas ainda assim
existe tesão em ti
e a maré está brava
não está pra beijos
nem mesmo esses
de despedida e eu
me despeço-te
te despedaço-me
me perco-te
te peço-me
um pedaço
me pico-te
te peco-me
um pecado
que é tu
aquieto-me

amargo quase beijo

Como se morresse de sede, virei-o ali inteiro, veneno. Em minha boca, amargo. Mas antes que pudesse festejar em goles turvos, interrompeu-me suplicando que lhe doasse um pouco da minha morte. Eu, confundida sobretudo pelas luzes, deixei-me ser roubada. Minha boca então dormente pela meia dose e silenciada pela sua falta de violência. Não soube dizer que sim ou que não, apenas não morri de frio. Perdi os sentidos, pisquei umas vezes, desacreditada da sobrenaturalidade dos quase beijos, que salvam até os olhos trôpegos do precipício. E as papilas sobreviventes do risco que foi cair em sua boca.

a fundo

espetáculo de luzes
cromia e sintonias
não corre assim
na minha direção
como se estivesse deserto
– uma multidão – areia fina
na pele abre erosão
quando explode: estrela
se eu mergulho nos seus cristalinos
cachoeira obsoleta nos olhos
arrepio em noite quente
profundezas onde me perco
seu ser desconhecido treme
nossas buscas translaçadas
reconheço (neste brilho todo
tem me resgatado da escuridão)

próxima estação

quando eu voltar pro rio
será como antes
vou pousar num poema
suspirar e acender meu cigarro
fingir que não fui alvo
na calçada da lapa
vou passar pelo samba
sem sambar descalça
ir à praia sem me desnudar
e voltar de metro

quando eu voltar pra sampa
será como antes
vou pisar nos meus versos
chorar e acender meu cigarro
fingir que não fui ambulante
vendendo arte na paulista
vou atravessar o sinal
sem beijar com meus olhos
ir ao cinema sem pagar
e voltar de metro

quando eu voltar pra casa
não será como antes
vou correr pela praça
suar e acender meu cigarro
fingir que não fui tola
me enganando de propósito
com beijos de olhos fechados
descendo a escada rolante
vou desembrulhar meu peito
esvaziar a caixa toda
e voltar, sem bilhetes

pingo

eu saltei
fui gota da chuva no seu rosto
espatifei em mil estilhaços
se fosse sólida teria quebrado
mas só sei de amor líquido
minha queda é entrega
braços abertos
peito desperto
olhar incerto

meus óculos embaçaram quando choveu no nosso beijo

tinta

ficamos tinta fresca
reboco sobre reboco
toneladas de tons
quebram dègradée
riscos sem rascunhos
pincéis nos punhos
como francoatiradores
no alvo

ficamos tinta seca
pele sobre pele
camadas de cal
queimam horizontes
rastros em rabiscos
pulsos pincelados
como meros amadores
no palco

solução reativa

era pra ser um experimento
– químico –
eu nunca fui boa com as medidas
transbordou as reações
as soluções inventadas
de líquidas tomaram uma solidez
impossível de beber
não era copo de veneno
era mordida e insensatez
que até a boca borrada se despiu
e eu me vesti com a minha pele

dentro de você