solução reativa

era pra ser um experimento
– químico –
eu nunca fui boa com as medidas
transbordou as reações
as soluções inventadas
de líquidas tomaram uma solidez
impossível de beber
não era copo de veneno
era mordida e insensatez
que até a boca borrada se despiu
e eu me vesti com a minha pele

dentro de você

mão quente, coração gelado

olá estranho essa noite chove sem melancolia é algo como uma sutileza dos dedos escorregadios nos antebraços suas mãos tem resto de cola que na minha é lavável e sai quando lavo na pia mas tem coisas que não lavam quando chove a urgência não se esvai na chuva o desejo não se esvai na chuva o anseio não se esvai na chuva e o beijo não derrete na chuva na receita não vai açúcar e o tempero não se dissolve o gosto ainda é de primeiro beijo quando chega na calçada que muda de nome e número não me lembro das placas mas sei que era vinte e três subindo as escadas à direita o teto não caía porque as pilastras seguravam de maneira decorativa o espelho não caía porque a gente dançava um dueto inventado em fluxo de tango os olhos não caíam porque outros olhos aguardavam firmes não tem uma bandeja servindo os pedidos do peito esquerdo para guardar na redoma os olhos não caíam porque eram as redomas e o pedido estava guardado ali dentro cristalizado como uma urgência como um desejo como um anseio que não derreteram na noite de asfalto molhado e se fosse açúcar seria caramelo porque tudo queima nas mãos quentes e vira cristal de gelo até no seu coração gelado ponho pra ferver e bebo-te depois pra matar a sede de manhã

status de relacionamento

e se a gente tentasse ser mais informal
e o embrulho fosse o jornal de domingo
quem sabe assim, a gente ia indo
de quarteirão em quarteirão e não
a maratona inteira da são silvestre
sem precisar dizer que sim ou que não
ou embrulhar o futuro pra presente
com laço de fita e cartão de aniversário
sem a dívida da geladeira em prestações
será que existe um outro modelo
de um relacionamento não sério
em que as pessoas tombam bêbadas
de amor e riem do próprio estardalhaço?
será que existe espaço capaz de caber
na mesma linha a liberdade e a solidão
e ainda dar as mãos pra ver a rua
e ser aplaudido por um beijo de cinema?
sem essa noia atormentada de se saber
se você me liga amanhã! nem ligo
eu quero você comigo agora e quem sabe
a gente se vê por aí quando for acaso
deixa o acaso ser casual, amor
e sem pavor se eu te chamar assim
e sem medo se eu te amar hoje
com nome de desejo ou de tesão
ou com nome de abraço ou de carinho
que diferença faz? só não me pede
pra ser modelo ou exemplo de casal
isso só faz mal, pra você e pra mim
vamos ir indo sem chegar a nada
e abrir o jornal em vez dos pacotes

ainda rabiscar

pintei sete maravilhas
com pincéis nos dedos leves
fiz caminhos de mapas antigos
rios escorregando em cheias
sem pedras e sem pedras
desenhei foi uma tatuagem
desabrochada em poesia
riscos que ficaram em comichão
seus ombros vão lembrar-me
por onde passei erosão
minha obra na sua pele
até de manhã

cinzeiro de porcelana

fiquei consumindo-me no seu cinzeiro de porcelana
acesa
você tragou-me
silêncio pensativo
coração esquivo
larguei-me em seu cinzeiro
feito um corpo cansado na banheira
seria num tempo de uma sexta-feira
com trânsito intrafegável nas vias
a janela aberta da madrugada trazia
um eco morto da noite insana
lençóis amassados na cama
gosto de maresia
e nicotina

eu continuo acesa no seu cinzeiro
me desfazendo em cinzas
até apagar as luzes

pagando contas

Tenta me contar as horas, mas como quem conta as notas de dinheiro, passando os dedos folha por folha, assim na minha pele. Encaixa suas digitais nas minhas digitais, trazendo além da virtualidade os amores marcados em labirintos. Corre comigo nesse labirinto, como a cheia de um rio que permeia os leitos. Sejamos leito, deitados e velozes, em desvios e curvas, em lençóis freáticos que vamos descobrindo. Vamos nos descobrindo, tirando todas as censuras, quebrando as leis civis e físicas. Sejamos imorais como corações selvagens sabem ser, brotando da terra feito matos e pêlos e mãos aventurosas. Sejamos carne crua e pulsante no lugar dos relógios tiranos, porque o tempo – ah, o tempo – não é da conta dele o nosso desejo.

sê de mar

água
que corre nas veias
é vida que anseia
arrasta em correnteza

água
desiste da hora
dentro de mim só chora
com medo de ser mar

água
em mim é oceano
sou eu que te chamo
feito sereia de canto

água
qual é seu segredo
será que mistério
que faz ter medo

água
talvez um veneno
pro mundo pequeno
que vai naufragar

água
em seu ser cristalino
por dentro um menino
que não sabe nadar

água
vem se cachoeira
vem ser tempestade
vem cá me afogar

água
não vem tirar onda
eu pago esta conta
pr’em ti mergulhar

água
copo meio cheio
vazio é receio do mar
com sede de cais

água
vem ser cachoeira
vem ser tempestade
vem cá me afogar

água
mata minha sede
cai na minha rede
e me ensina a pescar

água
sinônimo de beijo
é o nome do seu beijo
é beijo com gosto de mar