língua portuguesa avançado II

você me dizia algo na sua língua

alta velocidade túnel adentro
cortando o transitável espaço
via de mão dupla e sem paradas
o sinal aberto pra seguir em frente

tentava me dizer algo na sua língua
um frenesi descontrolado e melódico
na minha cabeça não fazia sentido
eu só conseguia balbuciar
que continuasse e que continuasse

no túnel infinito da noite
sua língua tinha um ritmo próprio
que encontrou por fim onde pousar
e eu

gemi de satisfação

compreendi por fim
linguagem oral canta e toca
música no baixo ventre

a letra crua

minha letra ilegível
quem tem pressa escreve cru
alguém me empresta uma caligrafia
pra passar a limpo
antes que escorra
a mão lisa de caneta líquida

a letra é líquida como os amores
quando vi já escorreu

ou o gozo
ou a lágrima

viva! os poemas de coração
[partido ou coito interrompi-
[do

viva!

viva!

viva!

poema marginal piegas

ponho coltrane pra tocar, espero chegar
meu poema marginal pra te presentear
uma cuspida suja no chão de asfalto novo
no entanto, quando tento escarrar-me de horror,
pego-me sorrindo à lembrança de teus beijos
ontem não consegue ser um chiclete usado
tuas mãos às cegas sobre a seda em meu seio
meus lábios às pressas buscando teu afago
eu vestida queria-me nua
tu me olhavas quase rindo
como se eu fosse a única na rua
de fato era: acaso lindo

fome

a poesia tem fome
mas cozinha em fogo brando
não deixa queimar o verso
sem que haja clímax ensandecido
ou desejo irremediável
a poesia não almoça rima
se alimenta de corações partidos
faz da dor uma salada fresca
e da paixão seu prato principal
quem morre poeta um dia
não passa mal de úlcera
só sofre vez ou outra
do peito atingido por fel
e do verso sem pontuação
mas a poesia mesmo
só tem fome de saber
se amor é métrica
pro café da manhã

conjugação verbal

o amor é o tocar dos pés na água
brevemente
nem os pés secos nem os pés molhados
nem fora nem dentro d’água

o amor não é afundar-se
mas andar sobre as águas
flutuante e calmo

não é o reflexo na limpidez
nem a profundeza obscura
nem a liquidez sagaz
o que faz do amor esse fluido

o que faz do amor esse fluido
são os lábios que se beijam
e os corpos que se nadam
numa luta inescrupulosa pra sobreviver
sem afundar e sem afogar-se
e os olhos que se assistem
e as mãos que se procuram
e os pulsos que se sintonizam

mas o amor não é um mergulho
nem o salto diante da piscina
o amor é o devir n’água mansa
a dúvida de que seja possível andar
mas com a certeza de não afundar
nem os pés nem o corpo
nem a alma fundida

o amor é o presente
o ato primeiro que une
desespero e calmaria
urgência e espera
posse e desapego
humano e divino
antes e depois

andar sobre as águas
é o verbo sem domínio
eterna busca dos apaixonados
que estão sempre de mãos vazias
e corações cheios demais
conjugar em tempo real
o impronunciável verbal

carta ao poeta

Sem envelope, sem endereço
linhas sem regras e limites
desafio-te a rasgar
em vez de verbos, o papel
todos os versos soltos
sejam amassados
dentro das mãos
A tinta mancha
no canto da palavra
confunde o olhar
embaça o sentido
desfaça a canção
descrita em caracóis
O centro é o fim
deste redemoinho
o começo é aí
em qualquer letra maiúscula
não começa um alfabeto
no banco da praça
palavras não são degraus
pra se sentar em silêncio
mas como grafites
que sujam a parede
de toda convicção
Uma após outra
conjugação e signo
num labirinto empírico
por onde se foge
em corredores sem saída
Não esquece
labirinto tem só entrada
esperto é quem ganha
o coração.

hiato

eu sou uma espiral
feita de tantos giros
estarei eu proibida
enquanto quero, firo
fico dividida

posso ser duas, três
até perder as contas
conte-me quem sou
no final das contas
é pra onde vou

não me deixe louca
seja meu desespero
que de insanidade vivo
enquanto te espero
até sobrevivo

se isso então passar
deixe-me sozinha
ou me tome inteira
eu só sei ser minha
última e primeira

pois se for metade
não, não leve nada
o que tenho é meu
e na minha estrada
você se perdeu