velório para quem vive

seu flerte com a morte era uma dança
descalçava os sapatos e pisava na terra
a longa saia casada com o vento
o busto de fora que se rebela

mesmo no dia de sua morte
queria ser lembrada nua
mulher na crueza do corpo
em chamas e em chagas

não morrera porque era quinta-feira
seus algozes a sequestraram
os comprimidos foram confetes
engoliu um carnaval inteiro

não morreria ainda por tão pouco
talvez um carnaval fosse pouco
ela sobrevivera às paredes brancas
do hospital público sem ambulâncias

queria tornar-se assombração
perambulando os corredores vazios
os pés e os peitos livres e brancos
a fotografar a beira de todas as mortes

Cabeça oculta

Eu sonho em ver a aurora boreal,
poder sair correndo na areia da lua
e assistir à autopsia do meu cérebro,
mas pra isto eu precisaria morrer primeiro
 
Se eu fosse lixo humano jogaria meu corpo
no vazio espacial, viraria um satélite seco
antes meu sangue teria esvaziado das veias
ao coração e meus órgãos seriam doados
 
Meu corpo façam o que quiserem com ele,
mas abram o meu crânio e dissequem
cada curva da minha débil mente
até que me compreendam como eu
 
Eu jamais me compreendi.

orgânica e putrefeita

sinto o rabisco
agulha nas entranhas
tatuagem interna
coceira eterna por dentro
orgânica e putrefeita
a mulher refém e desfeita
a paixão é comichão atroz
respirando as cinzas do que morri
rasgando os órgãos
engolindo a seco a vida
empurrada pela garganta
sinto o risco que é ser obrigada a viver

a morte espreita silenciosa
perseguindo-me insinuante quando me calo

ensurdeça-me, vida
alta e ribombante
faça-me esquecer a gastura
corte rente e sufoco
meu corpo fugaz e oco

autópsias tumulares

cadavérica
olhos fundos

jaboticabas apodrecidas

conserva azeda
atrás dos vidros

cabelos de defunta que acordou tarde –
o velório era às sete!

deu tempo de plantar semente
os ouvidos como vasos
uns brotos de ecos
folhas murchas

a cor da bunda na face:
pálida – como velhas
usando calçolas no verão
quarenta graus e mar
guardassol e copacabana

os ouvidos férteis
as orelhas gritam:

GOL

mas era sede
um gole de
vida que
peço

pus a colher na boca seca
degustei uma última vez
doce com gosto de pus

acendam as velas
amém

psicopata vingando amor

Os degraus foram preenchidos por uma multidão de pessoas desconhecidas e eu senti como se no meu crânio tivesse passado uma manada, derrubando tudo pelo caminho. Eu quero um copo de gin gelada. Somos animais domesticados e comportados, mas deveríamos estar dançando enquanto a banda toca. Sopros profundos de uma profundeza humana incompreensível. Viemos dos ocos do mundo e ouvimos sua sinfonia além-túmulo, de gente morta que vive pra sempre e continuamos seres vivos que morrem pra sempre. Eu ficaria feliz se você no auge da sua sociopatia adentrasse a arena com uma metralhadora e derramasse sangue que escorreria até a lagoa. E os ruídos da jazz sinfônicas abririam alas para nossa passagem espiritual enquanto você sangra em riso quente me assistindo morrer. Eu não sangro, eu te aceno agradecendo.

correndo com lobos

como uma fera
eu ataquei seus instintos mais agudos
meus dentes afiados no pescoço
minha mordida voraz
sua quase morte
empírica

como um bicho
eu avancei em sua pele de cordeiro
te desnudei em carne e osso
mordi seu pedaço de vida
e almocei suas tripas

como um monstro
eu cacei suas insanidades
dilacerei seu extremo desejo
de permanecer sangue
na minha boca

como uma fêmea
eu dominei suas inconstâncias
despi minha pele de lobo
surgi animal em mim
natureza original
entregue

Apodrecido

Deteriorando
carcomido por traças
ruindo pelas tabelas
despencando as laterais
Foi apodrecer de fora pra dentro
de dentro pra fora
com fungos e vermes
corroendo feito ácido
Um maniqueísmo derretido
uma cratera plástica
vomitando sua bílis existencial
Do seu âmago nasce
o mofo que te cobre
da frieza interior
e o gosto amargo que restou
na boca de um beijo podre
O órgão que desaba
sem estrutura firme
é um coração abandonado
à condição de ser cru.

que vem torpor

olhos embaçados no espelho
existe uma vontade de pedaços
cacos de vidro

ela entoa mantras de cadáver
ressoam escorridos pelo corpo
socos no estômago

pulsos frios, pés encolhidos
mais de dor que de prazer
somente dor
somente dor
somente dor

a profecia

não houve simetria
apenas o lado reverso
reflexo de algum passado sem remédio
a última pílula da vida
o único segredo sentado na calçada
viu a chuva
escorreu as doenças humanas pela rua
não se deixou levar
a carcaça é dura
os cabelos brancos
perguntem do beijo
que envelheceu uns anos
é úmido com gosto de defunto
não é pra ser bonito

o que tem na saudade?

mais alguém morto
de ciúmes
de desejo
de poder
água negra ecoando
no centro da fonte
alguma canção desidratada e poluída
com gemidos de quem se assassinou
um beco sem saída
rua escura
gato manco
um assobio de quem veio trazer sua morte
de tanto sangue seco
depois que parou de chover
não se ouvem anjos
veio o silêncio canonizar seu amor