florais queimados

me diz então seu calcanhar
posso quiçá retratar suas falhas
lamber suas rugas ao canto d’olho
secar seu choro mando ao fel
[da minha boca
rasgar sorriso frouxo
entumescida a minha flor
desabrocho as roupas de outono
desabotoo um timbre da pestana
nosso sons nunca estão ocos
bate a chuva na janela
retumbantes sofrimentos de querer
o querer! o querer! o querer!
despetalo até o tálamo
dessa lógica cervical
um desejo aceso: incenso
aroma que roubamos das nucas
dou-lhe flor quando nino
nada meninos brincamos
apaches ou dedos ou flâmulas
incêndio cômodo no quarto: orgasmo
mastigo as folhas do seu jardim
mordida a fruta do éden

longos rios em dia de chuva

ali arraigada minha pele pelas suas mãos
um manancial correndo as veias
correnteza extrema que navega
suores no contrafluxo climático
arranhando as margens digitais
eu sei você como um desenho de rio
enquanto me percorre aos olhares
me beija os afluentes até a nascente
escorro e você me preenche

brinde à insanidade nua

as folhas secas na garrafa molhada
te tomei minha sede às pressas
as unhas na sua pele
eu rasgando minha garganta
arrancamos as peças de preocupação
passado e futuro desfizeram-se líquidos
só uma dose de presente
despimos os medos
tu me deste sua ansiedade pra guardar na bolsa
eu te dei minha depressão pra guardar no bolso
jogamos nossas insalubridades e bebemos
do copo do desejo

Gabi Zanardi | releituras

prato do dia

na mesa de todos os quereres
eu me sirvo horrores
encho a boca
me entucho
que mal hei de mastigar
que mal hei de engolir
pra te beber com gosto
pra te tomar com gozo

sem respiro
porque não há de se sentir mais nada
o fim do desencontro é uma morte
no prato feito dos corpos
arroz e feijão é sexual

túnicas de platão

eu me despi das túnicas de platão
prefiro o corpo todo no sol
queimaduras de terceiro grau
porque poesia não marca a pele
nem a ferro nem a fogo
versos só provocam
não me levam ao orgasmo
com tanto rodeio na praça
a sua virtualidade me desgasta
preciso é dos sussurros
e dos gemidos e dos olhares
e das mãos e dos lábios
e do timbre e do aroma
e o arrepio na pele quente

prefiro passar frio e me despir
das túnicas ornamentadas de platão
prefiro ser só minha pele
e a carne crua na sua mão

comichão

eu te descubro com as unhas
arranho a solidez da pele
tem um verme de inseto
sob a camada da epiderme
é um ser fantasioso que coça
um comichão insuportável
tem outro nome e não é doença
é uma invenção pra não dizer
a verdade sexual da vida

ainda rabiscar

pintei sete maravilhas
com pincéis nos dedos leves
fiz caminhos de mapas antigos
rios escorregando em cheias
sem pedras e sem pedras
desenhei foi uma tatuagem
desabrochada em poesia
riscos que ficaram em comichão
seus ombros vão lembrar-me
por onde passei erosão
minha obra na sua pele
até de manhã

como canibais

te comeria pelas bordas
mas em vez de te experimentar
abro-te e arranco todas as tripas
eu que nunca fui muito de bucho
precisei me deliciar na sua carne crua
pulsar o sangue na boca
e ser predativa aos dentes

te fiz comida
em cada arroubo
em cada mordida
ficamos animal aberto
sobre a mesa