cinzeiro de porcelana

fiquei consumindo-me no seu cinzeiro de porcelana
acesa
você tragou-me
silêncio pensativo
coração esquivo
larguei-me em seu cinzeiro
feito um corpo cansado na banheira
seria num tempo de uma sexta-feira
com trânsito intrafegável nas vias
a janela aberta da madrugada trazia
um eco morto da noite insana
lençóis amassados na cama
gosto de maresia
e nicotina

eu continuo acesa no seu cinzeiro
me desfazendo em cinzas
até apagar as luzes

dessa fome

te mastigar feito uma palha de mato
até se desmanchar na boca e grudar
o gosto de cidreira nas papilas
te degustar na minha saliva
a língua deslizando o céu
de toda boca e as paredes
de todos os dentes sujos
te morder e triturar as camadas
como cebola crua que faz chorar
enquanto te como aos pedaços
faço arder o rosto todo e o corpo
te engolir como tragos sôfregos
respirando mais seu suor de homem
que oxigênios suficientes
minhas sinapses que falham
enquanto eu te consumo
feito uma droga na primeira vez
uma descoberta imensa que

assume-me pelos membros todos que antes
nem existiam

risca-me

eu pareço um desenho
sou traço e rascunho
pinceladas rasas
de próprio punho
tinta fresca e náscar
nuances e timbres
de cores alternadas
brilho que seca ao sol
ofusca cada camada
em ré bemol

pagando contas

Tenta me contar as horas, mas como quem conta as notas de dinheiro, passando os dedos folha por folha, assim na minha pele. Encaixa suas digitais nas minhas digitais, trazendo além da virtualidade os amores marcados em labirintos. Corre comigo nesse labirinto, como a cheia de um rio que permeia os leitos. Sejamos leito, deitados e velozes, em desvios e curvas, em lençóis freáticos que vamos descobrindo. Vamos nos descobrindo, tirando todas as censuras, quebrando as leis civis e físicas. Sejamos imorais como corações selvagens sabem ser, brotando da terra feito matos e pêlos e mãos aventurosas. Sejamos carne crua e pulsante no lugar dos relógios tiranos, porque o tempo – ah, o tempo – não é da conta dele o nosso desejo.

dois

E da carne fez-se o antro que de encanto não se sobrevive, é nos cantos mais sombrios que o amor pode ser destroçado a ponto de sangrar pelos poros, ou domar com os cabelos ou se safar do medo de ser mais ainda humano. Até que não seria ruim… arruinar feito um prédio mal acabado daquilo que não serviu pra ser lapidado mas foi, com pinturas sobre paredes descascadas e infiltrações vindo de todos os lugares como um mofo que cresce pelos órgãos que foram esquecidos: um instante – acabo de lembrar do meu café da manhã, leite puro até que se prove a intolerância à lactose e queijo e facas e queijos que você nunca experimentou. Deite-se sobre uma toalha xadrez e jogue, não venha me dar um xeque, eu sei ganhar e posso; enquanto isso, vão querer abominar nossa estrutura desde às fundações até as telhas.  Só acenda a lareira, não ligue pra mais quantos invernos continuarão tentando e falhando que é o que fazem de melhor; enquanto fazemos amor com o que temos direito, indo e vindo por estradas sem medo de correr, sem medo de frear, sem medo de esperar. E sem medo de esfriar, porque não esfria mais quando se tem dois.

confinamento

entre os vagões perdidos
o asfalto ainda quente
que as estrelas abençoam
enquanto as luzes destoam
no silêncio inconsequente
do nossos próprios ruídos

entre os risos inconstantes
vem um susto e vem suspiro
que lá fora vinha alguém
enquanto me finjo de refém
como se viesse outro tiro
emudecido pelos passantes

pensei que aqui neste refúgio
pouco importa se nos ouvem
ou se nos vêem à pele nua
digo apenas que sou sua
e escuto apenas se convém
esconder dos contrafluxos

sem cortinas

A pintura descascou da parede, o vapor escorreu no espelho, se houvessem cortinas teriam sido sacudidas, os sapatos se perderam embaixo da cama, a chave virou três vezes, o interruptor decidiu apagar a luz, os cães escutaram. Só eles sabem descrever com seus latidos e uivos. Que a rua estava vazia e que o céu estava cheio. Que metade era minha e metade era sua, uma única moeda que não pagou nada. Era o cetim ou era a pele? As duas coisas sentiam brilhar dentro das pupilas e das papilas. O gosto não mudava. Que a lua ficava mais cheia e o copo mais bebido e o corpo mais ruído e o desejo mais. Pra saber que cor vão ficar os olhos quando a cor dos cabelos mentir, pra adivinhar que há mais equilíbrio com quatro apoios, mas que com menos também não é ruim perder o equilíbrio. Que a voz ficava vazia e o canto cheio. Que metade era mudo e metade era grito, porque aprende-se a ficar rouco e fazer pedidos mesmo assim. Era a luz ou era a cegueira? As duas brilhavam lá fora de manhã e o gosto não mudava. Que a rua ficava mais cheia e o céu mais vazio e o riso mais denso e o acalento mais. A parede escorreu da pintura, o espelho sacudiu no vapor, se houvessem chaves teriam se perdido, os sapatos escutaram embaixo da cama, o interruptor apagou três vezes, os cães decidiram descrever, as cortinas descascaram. Só elas sabem.

fruta

Eu quero a polpa. Que na mordida se desfaça a necessidade, que no toque satisfaça o desejo. De toda carne, tão sagrada seja guardada a resposta, num santuário feito de mel. Ficaremos ali, adoidados, idolatrando sua pele, cobiçando possuir o que de mais sutil se esconda. Lá dentro, a textura fria mas um tanto morna, pois numa breve aproximação aquece a fome. Ela feita do que alimenta os sonhos, muito mais que a paixão. Essência que move todos os anseios mais profundos. Nesta busca, onde quer que esteja, o que se consome fica ainda mais consistente, incapaz de putrefazer. De puro fel, morde-se o destino.

banho de espuma

Os dedos do pé ficavam para fora da água observando o movimento das ondas, enquanto a gente segurava a respiração e mergulhava a cabeça. O mundo emudecia e eu ficava ouvindo seu coração cantando Beatles, a gente fingia que aquilo não ia acabar outra vez. Aqui, lá e qualquer lugar podia ser a hora de dizer, mas ninguém dizia, era mais certo entupir os ouvidos de água.
A gente era um sorvete de baunilha, o Monte Everest e todos os gostos bons e lugares que faltavam conhecer. A gente tinha o dom de imaginar todos os cavalos selvagens cavalgando pela encosta, como se fosse só isso, fugir. E a gente ria tão alto, fazendo as bolhas de sabão explodir. Isso se chamava beijo.
E tinha gosto de sabão e fazia cócegas.
O melhor jeito de controlar sua intensidade e deixar o tempo irresistível. A gente gastava tudo o que tinha, jogava para o alto. Era neve. Ia caindo do teto… eu soprava todas as bolhas, eu até suspirava. Suspiro é riso, quase doce, é a sobremesa.O vapor da água ia subindo pela face, eu nem morri de vergonha, eu atingi você. E você se vingou com mais força, até que eu me afoguei, engasguei.

Ainda tem gosto de sabão.