chuva de verão

Ela acordou abraçando o travesseiro, sem querer levantar do sonho, nem acordar da cama. Sorriu os olhos, lembrando que era sábado, esfregou as pálpebras como quem tem preguiça de se sentir amada e preguiça de saber: é possível. Despedaçou seu guarda roupa para encontrar os melhores tesouros, um vestido e uma calcinha de renda. Imaginou-se – não era nenhum vestido que havia. Ligou o chuveiro, tocou uma sonata de Bach nos ombros, uma melodia tão limpa que alisava sua pele em vez de arrepiar. Pele de pêssego, perfume e gosto que o deixaria inebriado.
O calafrio veio quando desceu do metrô, terra firme e alguma coisa balançando no estômago. Ele talvez não viesse. Ia chover e ele não chegaria. Seus cílios, seus lábios, seus cabelos, suas unhas, suas rendas, suas pernas, seus saltos – tudo em vão. Tocou o telefone, não era ele, era uma amiga com assunto aleatório, era sábado, cor de vodca, som de joelhos, vamos sair. Tocou o outro telefone. Só um segundo. Atendeu, era ele, olhe para a catraca, seu sorriso, sua vontade, seu impulso, sua pulsação.
Te ligo mais tarde.
Atravessou para o lado de fora – para dentro do abraço que foi o silêncio das suas perguntas. A saudade não foi dita, foi beijada. E desceram as escadas, atravessaram a rua, olharam as prateleiras. O céu anoitecendo às quatro e meia da tarde. Why are you naked? Meu vestido. I’m not. Estavam quase correndo, mas a chuva acalçou os calcanhares. Não procuraram abrigo, choveram ainda mais nas ruas, com gosto de cidade escorrendo pelo rosto. Os cachos dos cabelos se perderam, o rímel se apagou, o perfume derreteu por todo o corpo até as calçadas, os bueiros e o charme deve ter parado nos esgotos.
Faltava só uma esquina.
Seus olhos gritavam. A tempestade havia aberto todos os poros do corpo de desejo. Ela sabia. Fecharam a porta, depois as cortinas e os olhos. Seus cílios, seus lábios, seus cabelos, suas unhas, suas rendas, suas pernas, seus saltos – tudo em vão. Anoiteceu às cinco da tarde.

delírio

Querer cicatrizar o prazer por dentro dos órgãos digestivos, engolir o sabor dos sussurros imperativos de cada pedido, estar perdido para o inferno enquanto os pés pisam no céu da sua boca, querer a meia parte do poder que é o território do seu corpo, fingir que só metade basta pra se convencer que completamente é muito, é pouco, porque ser o bastante é até demais, chega a ser insuportável eu me permitir ser um pouco de você, faço-me de boa quando beijo seus ombros, faço-me de má quando arranho suas costas, não me deixo encontrar em nenhum extremo, que é no meio do caminho onde é mais interessante se perder, fugir pras entranhas desse labirinto do qual o último objetivo é sair, contanto que seja sempre a fuga, sempre a perda, sempre a dúvida, eu procuro o desencontro pra que sempre haja a busca insaciável de não possuir respostas, até que interrogações condensem meu estado insólito e apático de odiar com as unhas e amar com os olhos.
Devora-me ou te decifro.

recado de maçaneta

Sinto nudez por você
despida de qualquer convenção
que em mim tenha resistido em vão.
visto-me de você,
enrolada inteira nos seus braços,
coberta pelo seu abdômen escasso,
perfumo-me do êxtase em seu cheiro,
durmo no seu olhar fugaz
onde nasce um despenhadeiro,
penteio-me através do que se desfaz
sou feita de uma vaidade que você me beija nos ombros,
escrita pelo desejo que se procura nos escombros,
esculpida na vontade com que me fareja atrás dos ouvidos,
cantada na cadência que se emoldura em ruídos