clarão dos olhos

está claro quando nos fitamos: as luzes acendem
os pulmões acendem grandes fogueiras
pegamos fogo
perdemos o ar
as faíscas sobem pela garganta
queimam as palavras no caminho
o silêncio se incendeia
brilham chamas pelos olhos
ficamos hipnotizados pelo calor

até que piscamos

feito um jato d’água
apagamos o tiroteio de fagulhas
voltamos a respirar fumaça
como se nada tivesse sido dito

mas foi

Kevin Balieiro

Sessão improvisada durante o 20º Psicodália, em Rio Negrinho-SC, com o ator Kevin Balieiro.

a fundo

espetáculo de luzes
cromia e sintonias
não corre assim
na minha direção
como se estivesse deserto
– uma multidão – areia fina
na pele abre erosão
quando explode: estrela
se eu mergulho nos seus cristalinos
cachoeira obsoleta nos olhos
arrepio em noite quente
profundezas onde me perco
seu ser desconhecido treme
nossas buscas translaçadas
reconheço (neste brilho todo
tem me resgatado da escuridão)

grama

com aqueles olhos de comer fotografia
havia toda uma multidão
e tu
ponto azul errado no meio das cores
costurado com linha cru
o vento é só um pretexto
te deixa caminhar
pra onde houver uma janela aberta
pra cá
tem pessoas largadas às mesas
e copos se arrastando no saguão
que corpos são estes
celestes?
tu enlouqueces ao sol
pensando que viste brilhar os olhos
minhas pupilas escondidas
atrás desta fotografia
arranquei-te à força de um sorriso
e sem perceber me deste em troco
a mesma moeda de dentes
afiados na garganta
me tomando como posse de um olhar
engolindo todos os poros
me bebendo discretamente
enquanto brindam futuros
servem pedaços de sonhos
em pratos descartáveis
e os restos viram cenário
de um entardecer que chega
um pouco tarde

risco de fósforo

Te feri invisível feito um raio x
atravessando trevas e brumas no seu ser
como um fantasma acendi em seu peito
chama inflamada de silêncio
um fogo transparente que tremula
e a cera que se deforma lentamente
seu rosto é cera, seu corpo é cera
se desfaz
na gravidade que torna vil a existência
não cabe o líquido na solidez da minha face
não coube um beijo onde houve pausa
nem palavras souberam se atrever
fora da boca
e na mudez que consumia ardentemente
os olhos sorriram fiéis atrás dos vultos
ambos em pares correndo e fugindo
sem se dignar a um encontro cego
mas naquele vão
naquela vala
numa lacuna
no meio do caminho
atravessaram em dança inconsciente
como se nada houvesse mais ali
além da gente