grama

com aqueles olhos de comer fotografia
havia toda uma multidão
e tu
ponto azul errado no meio das cores
costurado com linha cru
o vento é só um pretexto
te deixa caminhar
pra onde houver uma janela aberta
pra cá
tem pessoas largadas às mesas
e copos se arrastando no saguão
que corpos são estes
celestes?
tu enlouqueces ao sol
pensando que viste brilhar os olhos
minhas pupilas escondidas
atrás desta fotografia
arranquei-te à força de um sorriso
e sem perceber me deste em troco
a mesma moeda de dentes
afiados na garganta
me tomando como posse de um olhar
engolindo todos os poros
me bebendo discretamente
enquanto brindam futuros
servem pedaços de sonhos
em pratos descartáveis
e os restos viram cenário
de um entardecer que chega
um pouco tarde

confessionário

Nada fica por cima deste último trago, a noite engole a cidade e eu engulo as cinzas. O passado reflete na última lua cheia do ano que foi embrulhado com alegria nas manhãs de segunda feira. Quando der meia noite eu ficarei atenta a qualquer sinal do vento. Eu só escuto o vento arranhando os prédios, cantando sua revolta, correndo e me procurando no escuro. Você dorme e sonha com isso, sonha alto na sala no sofá na tarde de outro sábado. Eu te resgato um dia e prometo que o paladar não terá esse gosto de agora, o que ficou pra depois veio de uma promessa antiga, feita em outra língua que já se perdeu no tempo, morremos e nascemos e morremos e nascemos e vamos morrer um dia, até quando esse desvio vai continuar? Não se atrase nessa vida que é uma chance única de me amar como sou feita agora de carne, osso e uma pitada de fel, dá um desconto que sou só humana demais e não tenho medo de cair no abismo e rezar pro chão não chegar nunca mais dentro do seu peito.

risco de fósforo

Te feri invisível feito um raio x
atravessando trevas e brumas no seu ser
como um fantasma acendi em seu peito
chama inflamada de silêncio
um fogo transparente que tremula
e a cera que se deforma lentamente
seu rosto é cera, seu corpo é cera
se desfaz
na gravidade que torna vil a existência
não cabe o líquido na solidez da minha face
não coube um beijo onde houve pausa
nem palavras souberam se atrever
fora da boca
e na mudez que consumia ardentemente
os olhos sorriram fiéis atrás dos vultos
ambos em pares correndo e fugindo
sem se dignar a um encontro cego
mas naquele vão
naquela vala
numa lacuna
no meio do caminho
atravessaram em dança inconsciente
como se nada houvesse mais ali
além da gente

meia volta

Enquanto eu dormi, o mundo correu ainda com notícias nos jornais, uma senhora foi assaltada sem perceber, pintaram o muro de amarelo, explodiu um transformador, alguém foi eletrocutado, um estádio foi demolido, o goleiro perdeu um gol, cartas foram enviadas, começou a nevar. Você foi correr nesta madrugada? A música nos pés e as sinapses cheias de interrogações sobre a vida, o universo e tudo mais que não coube no papel. Outros livros foram colocados à venda, uma roupa rasgada virou pano de chão, um rio foi desviado, acenderam luzes de natal, uma mulher perdeu sua virgindade, um homem foi enterrado em seu caixão, tentaram novas fusões nucleares, peixes foram fisgados, tive outro pesadelo e não acordei, varreram a calçada, alguém levou seu cachorro para passear no quarteirão, uma bailarina quebrou o pé, uma criança abriu a câmera e deixou o filme queimar, sua mãe a deixou de castigo, o liquidificador bateu uma vitamina, um mendigo encontrou um lanche mordido no lixo, uma igreja inteira clamou por deus, cantaram parabéns e assopraram velas, casaram descalços numa praia, derrubaram vinho tinto num vestido novo. Você voltou pra casa e antes de dormir se achou meio idiota, mas depois esqueceu. Duas horas se passaram, eu acordei com um band aid no dedo, parece que vai chover e coloco uma canção do cícero pra ouvir, ele me disse que se eu soubesse como machuca não amaria mais ninguém. Mas você está dormindo e não conhece essa música então entro no ônibus e esqueço.

o coração é um campo de batalha

Eu te avisei, é perigoso andar aqui dentro. Meu coração é um campo minado e não falo só do arame farpado. O que está cercado está guardado de qualquer assalto, de qualquer sobressalto, de qualquer kamikaze, de qualquer ataque atômico ou cardíaco. Minha estratégia não é compreensível pra quem tem raciocínio, pra quem tem lógica, pra quem usa regras de comportamento, pra quem usa manual de instruções para um jogo que não é de xadrez. Quem entra em campo de batalha, não brinca como em vídeo game. Não existe pausa, não se pula sua vez, não se escolhe os adversários nem as armas com que se luta e a defesa não é, de modo algum, como um botão que se aperta. Quem ultrapassa a linha da fronteira, já aviso, entra em guerra contra tiros invisíveis e facadas imprevisíveis. Até a última gota de sangue pulsar, a dor não fica virtual pra quem é soldado no coração da vida. O seu próximo passo pode dar numa mina e seus órgãos explodem simultâneos até que sua existência se resuma a um torpor.

cura

Se eu me desintegrar nas brumas enquanto atravesso ou me transfigurar neste feitiço, o contorno da boca fica preso no espelho, a assinatura é automática como um código de barras decodificado. Meu número é um vermelho bloqueando a tinta fresca que tenta esconder a sua parede. Põe os papéis picados dentro da fogueira, faz queimar em cinza e pó a estrutura desse labirinto, quando as cercas vivas começarem a despencar, então será um campo infértil abrindo como um deserto à sua volta. Todas as fortalezas vão caindo, em solo sagrado, no nome santo que se ecoa fino no sopro do seu descompasso. Vem num vôo breve, beija o seu orgulho ferido e desmancha a cicatriz.

indômito

Não me lembro que roupa você usava, se a camisa era branca e se tinha botão. Não prestei nenhuma atenção, nem no filme nem na melodia nem na distância que se diminuiu nem no descaso com minhas convicções nem em quantas vezes eu disse que não. Eu sei que eu disse. Ficou tarde depois da meia noite, e era muito cedo às seis da manhã, ficou um sufoco em algum momento e depois ficou leve demais pra se dormir, ficou um corredor aberto e era um vazio que me atormentava. Desde então. Às vezes é uma vitória se sentir derrotada, outras vezes a derrota é vencer. Horas adentro, bagunçamos tudo, e eu perdi a certeza de que podia trancar minha selvageria dentro de um baú, tinha horas que não cabia mais. Talvez o certo fosse não prendê-la, pra que não ficasse tão grande. Deixar fora essa fera indomável, do jeito que é perigosa, quem sabe se acostuma com o mundo e se domestica na convivência, sem morder, sem rosnar e sem assustar ninguém. Pode ser a solução que eu precisava, errar entre as sombras, emudecer os ecos, estacionar um sonho na garagem enquanto a noite não acaba. Meu animal, eu vou tirar do baú pra ver se sossega, não vou esconder que eu sou errada. Mas agora que está aí liberto, não me atormente. Quero meu sono sozinha, essa solidão é o que me segura em mim, entenda. Eu preciso te deixar do lado de fora.

carta ao poeta

Sem envelope, sem endereço
linhas sem regras e limites
desafio-te a rasgar
em vez de verbos, o papel
todos os versos soltos
sejam amassados
dentro das mãos
A tinta mancha
no canto da palavra
confunde o olhar
embaça o sentido
desfaça a canção
descrita em caracóis
O centro é o fim
deste redemoinho
o começo é aí
em qualquer letra maiúscula
não começa um alfabeto
no banco da praça
palavras não são degraus
pra se sentar em silêncio
mas como grafites
que sujam a parede
de toda convicção
Uma após outra
conjugação e signo
num labirinto empírico
por onde se foge
em corredores sem saída
Não esquece
labirinto tem só entrada
esperto é quem ganha
o coração.

reajuste calculado

Minha letra foi mudando
pra te alcançar nas alturas desses sonhos
[desvairados
Não pode ser comum o que é insano
mas foi natural
desprender-se de rédeas
e ser selvagem dentro
[de abraços e beijos porque
Não existe despedida para almas
que se casam nos olhos
e prometem no silêncio
sem formato
sem leis
sem palavras
Tem um amor desimpedido
desafrouxando nas mãos
[e nos lábios e nos suspiros
Ficamos soltos
como garranchos
como rascunhos
como improvisos
[que fizemos de impulso
Vem me despir de alguma razão
que tenha restado
eu também te arranco e rasgo
a lógica pra abrir espaço mais
pra esse sentimento de pertencer
[sem possuir