joão sem dona

o amanhecer é uma transa preguiçosa
no apartamento minimalista de Santa Teresa
rachaduras na parede de gesso
pedaços de pintura descascada
janela enorme que abre pra rua
paralelepípedos hexagonais encaixados
no quebra-cabeça de dois corpos
ao som da Tulipa e gosto dos cigarros
recém apagados no cinzeiro de porcelana
falta café filtrado na cozinha
e eu nua na sala de estar
folheio dos livros de shibari e Niemeyer
o sotaque da planície brasiliense

o amanhecer é um caro atraso
em troca de beijos e roteiros de cinema

poema marginal piegas

ponho coltrane pra tocar, espero chegar
meu poema marginal pra te presentear
uma cuspida suja no chão de asfalto novo
no entanto, quando tento escarrar-me de horror,
pego-me sorrindo à lembrança de teus beijos
ontem não consegue ser um chiclete usado
tuas mãos às cegas sobre a seda em meu seio
meus lábios às pressas buscando teu afago
eu vestida queria-me nua
tu me olhavas quase rindo
como se eu fosse a única na rua
de fato era: acaso lindo

brinde à insanidade nua

as folhas secas na garrafa molhada
te tomei minha sede às pressas
as unhas na sua pele
eu rasgando minha garganta
arrancamos as peças de preocupação
passado e futuro desfizeram-se líquidos
só uma dose de presente
despimos os medos
tu me deste sua ansiedade pra guardar na bolsa
eu te dei minha depressão pra guardar no bolso
jogamos nossas insalubridades e bebemos
do copo do desejo

quando eu digo que vou embora

Estou interessada.

Nas formas desencontradas que as baforadas do cigarro fazem no ar. Elas são como todos esses rodeios, os desvios que pego pra não estar até as quatro ou cinco da manhã na sua companhia. Eu podia ser dona do tempo, colocar no congelador, guardar para as próximas doses um pouco do seu falar arrastado. Dar goles dos seus risos quando me desse sede.

Estou correndo de patins numa grande pista, curvas à direita e à esquerda, dançando com o meu desejo frenético de ser sincera a cada vez que o portão se tranca. Nos buracos, tropeço, despedaço-me no chão de cimento, você me chama pra ouvir sua música. Seus segredos caem como gotas de veneno em meu estômago. Cala essa boca.

Poderia jogar pedregulhos nessa sua cara. Eles beijar-te-iam violentos.

Estou interessada nesse minuto de abraço, no soslaio com que me encara, nos joelhos que se esbarram propositalmente, no beijo em meu ombro frio, nos dedos nos meus cabelos, no que eu digo quando não digo nada. Estou interessada no silêncio que existe nas pausas. Essas pausas.

Estou interessada.

sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.

quartas no ap. 101

Gabi Zanardi | releituras

por enquanto assim

a gente não é nenhum beijo de cinema
mas tanto faz se não for assim
que quem hoje em dia quer saber de romance?
tanto faz se não for assim

e se a gente não entrar em sintonia?
e se a gente não couber no mapa astral?
e se a gente não sair nas cartas de tarot?
e se não estiver escrito nas estrelas?

eu acho que não tem nenhum problema
e que tanto faz se não for assim
me deixa escrever nas suas digitais
e ler na sua mão
que por enquanto
assim tá bom

a gente não entrou na roda gigante
mas tanto faz se não for assim
a gente não virou nem montanha russa
mas tanto faz se não for assim

e se a gente não pular de paraquedas?
e se a gente não se virar do avesso?
e se a gente não pular sem paraquedas?
e não enlouquecer desde o começo?

eu acho que não tem nenhum problema
e que tanto faz se não for assim
me deixa desenhar nas suas digitais
e ver na sua mão
que por enquanto
assim tá bom