Letícia Helena

Um ensaio de improviso que captou a essência do estereótipo da mulher selvagem. Modelo: Letícia  Helena Grellmann

Kevin Balieiro

Sessão improvisada durante o 20º Psicodália, em Rio Negrinho-SC, com o ator Kevin Balieiro.

amargo quase beijo

Como se morresse
– de sede
virei-o ali inteiro

veneno

em minha boca
– amargo
mas antes que
pudesse festejar em goles
turvos

interrompeu-me suplicando
que lhe doasse um pouco
da minha morte

eu, confundida
sobretudo pelas luzes,
deixei-me ser roubada
minha boca então dormente
pela meia dose
e silenciada pela sua falta de

violência

não soube dizer
que sim
ou que não,
apenas não morri de frio

perdi os sentidos,
pisquei umas vezes, desacreditada
da sobrenaturalidade dos quase beijos,
que salvam até os olhos
trôpegos do precipício
e as papilas sobreviventes
do risco que foi
cair em sua boca.

afagamento

aos poucos a gente se apaga
no breu da noite anuviada
se apaga
enquanto a bituca se consome em cinzas
se apaga
nos corpos que se tocam misturados
se apaga
quando os olhos fecham
a gente se apaga
quando dorme sem sonhos
se apaga
nos goles largos das canecas etílicas
se apaga
na brasa pela manhã ruidosa
se apaga
a cada tiro pelas narinas
se apaga
quando afoga no choro descontrolado
a gente se apaga
no silêncio que os outros nos calam

aos poucos a gente se acaba
sobretudo no apagamento

sobre o carnaval passado

língua de fevereiro uma acerola
os pés na terra argila afunda
a pedra o musgo a água

ah o mergulho

tiramos a roupa viramos lama
feitos do barro que explode
pedaços de projetos humanos
nadaram pelados no lago

do amor

usamos galochas e biquinis
descalços e com a cabeça coberta
perigo era tomar sol e não um porre

asa delta

fiquei então pendurada
feito roupa limpa no varal
pingando frases desconexas
nas dunas de um pescoço

qual oásis partido ao meio
mata altiva dançando
acertando em cheio a pele
erosão dos olhos fechados

uma chuva ácida dentro do beijo
jogo de luzes de naves estrangeiras
outro planeta que pousa no céu
de ponta cabeça sob a língua

voei no contra-plano galático
cinema em cores negativas
fundo preto estrelado e oco
asa delta planando no peito

eu obscura emudecia o riso
abria os olhos portarreflexo
universo todo aberto nas cartas
do tarô nos teus dedos

eu, blues

engolia e era azul
a névoa e o céu escuro
as estrelas e a copa das árvores
as sombras e a fumaça

engolia e era azul
o amor e a mágoa
o mantra e a mordida
o doce e a boca amarga

engolia e era azul
da cor do seu jeans
e do anis que brilha antes do anoitecer

que se no chão das coisas a gente se deita pra olhar estrelas e não tem cidade acesa por perto eu sinto o calor das pedras e o calar do seu semblante viemos pra escurecer outro dia e esperar nascer de novo sentir o chão esfriar enquanto continuamos aquecidos na lareira dos nossos amores impossíveis onde sempre vamos pondo lenha e vendo queimar e nos queimando junto virando cinzas sem nunca apagar

mantra para calar o coração

no oco das nossas costelas
reunimos uma bateria inteira
pro samba enredo desfilar
na avenida lins de vasconcelos
os peitos zabumbaram graves
os refrões cantados sob a janela
enquanto fez chuva no asfalto
fez nuvem sobre nossas certezas
esqueci meu nome na sua gaveta
e fui perdendo o que antes eu era
me tornando mármore cervical
esmagando corais esponjosos
na palma das mãos suadas
você numa escultura adornada
escondendo o rosto e a alma
cresceu árvore em vez do pescoço
plantou raízes ali mesmo
seus cabelos brotavam outonos
para a próxima estação amena
para a próxima canção amena
para a próxima destruição amena

vou cair no abalo sísmico da pele
vou cair no abismo orgásmico
me empresta um pouco da sua gravidade
antes que eu me desfaça
até o tálamo