Releituras Feministas | Lana

Projeto que busca confrontar a relação de mulheres com livros de autoras mulheres em seu cotidiano, através de retratos conceituais.

Lana escolheu “A Teus Pés”, de Ana Cristina César.

Participe!

Releituras Feministas | Blessing

 

Projeto que busca confrontar a relação de mulheres com livros de autoras mulheres em seu cotidiano, através de retratos conceituais.

Blessing escolheu “A cor púrpura”, de Alice Walker.

 

Participe!

prato do dia

na mesa de todos os quereres
eu me sirvo horrores
encho a boca
me entucho
que mal hei de mastigar
que mal hei de engolir
pra te beber com gosto
pra te tomar com gozo

sem respiro
porque não há de se sentir mais nada
o fim do desencontro é uma morte
no prato feito dos corpos
arroz e feijão é sexual

o baobab

Ruas. uma certeza brusca, o bosque, a busca
Lamparina. guarda-rosas, o rouge, a prosa
Luvas. falta um bocado, um troco, um trocado
Baile. volta em bate-bate, buzinas, boite
Cortinas. desses entrecasos mais cortes, mais caros
Toalhas. chega de bom senso, recesso, outro incenso
Nua. cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós…

o mesmo acorde

serei passageira
da sua história passada a limpo
só mais uma das suas pedras
perdidas na estrada derradeira

foram-se quatro
só um terço que rezo à noite
pra sufocar o que é eterno
no silêncio do meu quarto

foram partidas
jogadas a esmo nas cartas
rasgam-se versos-meios
nas nossas negativas

vim menina
fugi mulher que adoeceu
adormeci mesmo ferida
cobri-me de cortinas

noventa reais
rua sem nome na calçada
casa sem número na porta
repare que há janelas iguais

acordei segunda
nos outros dias da semana
não houve nenhum minuto
em que não me senti imunda

retrato de ambos

Eles ficaram, despidos. Os cílios em conflito, a alma fundindo no meio do caminho. Mais difundida. Que o que se ancora é com as mãos, o sorriso, o tempo. O vento que atravessa, ultrapassa, recomeça com a mesma intensa volúpia. Desembaraçaram-se, cada um dos nós, desamarraram tudo. Desfizeram tudo o que haviam feito, pra reaprender e reprender como se faz os nós, que o nós é feito desses laços malfeitos. Repetem-se as curvas, daqui para adiante – então se desenha outro embaraçado de sensações estranhas. Eles são razoavelmente pretendidos: feitos de desvios, metáforas e caminhos escolhidos para ir e voltar. E dizer sua realidade com palavras de fantasia. Não é possível abstrair propositalmente todas as materialidades com som de telefone tocando de madrugada, perfume de pêssego no corpo, um fechar de olhos pra ouvir mais conscientemente sua respiração. Eles vieram descobrir quão morno pode ser o beijo, em troca roubaram um do outro mais temperaturas do que qualquer corda de guitarra poderia suportar, mais do que aquela música suportaria tocar. Pedem estar, permanecer e tudo aquilo que puder ser um pouco mais. As cortinas com a janela, abertas para o que estiver lá fora.

É vento…

retrato dele

(para Dan)
Ele se foi coberto. Seus cílios longos, a alma afiada afora. Mais afiada. Que o que se atinge depois é com os golpes, com o sorriso, os minutos. O diminuto compasso de desenhar, riscar, ferir com o fel enviesado. Despedaçou-lhe, cada um dos órgãos, dilacerou tudo. Colocou tudo do avesso pra ver se o sangue é vermelho, que é tão mais vívida a pulsação que vai morrendo quando escorre. Anota-se todos os passos, na ordem correta – escreve-se uma receita do prato principal. Ele é pouco dificilmente reconhecível: feito de desvios, paradoxos e discursos cozinhando em banho maria pr’aquilo que é a longo prazo. E dizer sua covardia com palavras de carinho. É possível materializar abstratamente todas as exigências da alma com um pouco de sono, de esquecimento e aquela mentira que vem pra esconder o que foi consciente. Ele veio trazer sua panela de água fervente, em troca deixou só queimaduras de terceiro grau e uma febre crônica de quando se toca aquela mesma música, ou qualquer outra que for conveniente. Pede ausência, silêncio e o que não puder ser desocupado com nenhum dos dois. A janela sem cortinas, uma prova do que há lá fora.

É vento demais.

segundo diálogo mentiroso do corpo

Algo que não admitisse definitivamente, faltava ousadia ou coragem ou algo que escapa aos nossos entendimentos. Não cheguei a identificar a música que você resolveu tocar, ouvi feixes dos seus dedilhados, remanescentes das profundezas do mundo, algo quase sépia, que não sobrevive tanto ao silêncio, recortes dos seus instintos. Algo tão incompleto, que não chega a ser compartilhado. O que permanece é um eco de você, que eu tento reconhecer nas melodias que me movem, que se sugere como um fio tecido de mudez nos seus olhos. É que não vai acontecer. Nós procuramos um contrato de aluguel dos nossos corpos, uma garantia de não pertencer um ao outro, algum dinheiro esquecido no bolso de um velho casaco quando fez frio sem você, uma carteira de habilitação que permita ser livre de qualquer apego, um carimbo alfandegário que remeta de volta todos os planos, alguma conta atrasada das ligações que não atendemos.  É nos meus beijos que você não me encontra, é nos seus braços que eu não te alcanço. Nos pensamentos são corpos que se ausentam, é uma repugnância que se emociona, é algo desmentido que se cura. E tem razão, nos nossos olhos é uma verdade, uma verdade sádica insolente impositiva. Sou tão incapaz de amar quanto você. Então o que não se consuma se consome, se divide, se desvia no ensejo.
– Adeus, Saudade.
– Adeus, Desejo.