olhos dos elefantes

ficamos à espreita das memórias do elefantes
atrás de todos os arbustos e escombros
ficamos humanos só na pele
inventamos roupas cortinas e muralhas
penetramos a verdade da vida
sem nos permitir o contato das digitais
ficamos roucos ou ruídos dos basculantes
para os olhos dos elefantes
fitando o cru dos corpos sem dizer uma palavra

por enquanto assim

a gente não é nenhum beijo de cinema
mas tanto faz se não for assim
que quem hoje em dia quer saber de romance?
tanto faz se não for assim

e se a gente não entrar em sintonia?
e se a gente não couber no mapa astral?
e se a gente não sair nas cartas de tarot?
e se não estiver escrito nas estrelas?

eu acho que não tem nenhum problema
e que tanto faz se não for assim
me deixa escrever nas suas digitais
e ler na sua mão
que por enquanto
assim tá bom

a gente não entrou na roda gigante
mas tanto faz se não for assim
a gente não virou nem montanha russa
mas tanto faz se não for assim

e se a gente não pular de paraquedas?
e se a gente não se virar do avesso?
e se a gente não pular sem paraquedas?
e não enlouquecer desde o começo?

eu acho que não tem nenhum problema
e que tanto faz se não for assim
me deixa desenhar nas suas digitais
e ver na sua mão
que por enquanto
assim tá bom

abduzidos na luz vermelha

que fosse um trago imediato
te roubar para corredores escuros
que anestesia a lentidão das luzes
escorre a lâmpada pelos cabelos
desemboca o rio na tua boca
com anseios acumulados inteiros
pra calar a demora de uma semana
e enquanto chama eu fico brasa
da cor das paredes acesas
queimando a pele de desejo
e a gente se negando por medo
de ser negado em vil desprezo
outra vez se comendo com os olhos
abastados e incômodos
o beijo nas pálpebras
o beijo nas escalpas
o beijo nas calçadas
o beijo que descalça
a cor do beijo

bola oito

entrei num espiral
como se vida viesse redemoinho
subi ao segundo plano
onde se fez esconderijo

demorei-me sobre a pia
queria ter dormido ali mesmo
podia ser sepulcrada no banheiro
pra não precisar vomitar depois

cheia de náuseas

uma espera de um liquidificador
abri a porta esperando um vazio
pra me deitar sobre a mesa
jogar minhas dores nas caçapas

mas sorriso traiçoeiro me roubou
do plano de ir embora em silêncio
pescou minha nuca no outono
fui fisgada pra ser alvo de suas flechas

cheia de náuseas

não houve jogo entre sinucas
o seu abraço era tormenta
quem dera houvesse uma caçapa
onde eu cairia ilesa do seu olhar

ali atiramos nossas flechas
nossas farpas e espinhos rasos
olhando fundo nos olhos raros
fingindo se reconciliar

cheia de náuseas

eu me escorri meu corpo
pela escada e porta afora
estava líquida e afogada
sem choro sem voz sem bilhar

do meu fetiche se fez um drama
do meu desejo roubou a cena
podia ter me jogado sobre a mesa
mas preferiu rir dos meus amores

ringue para trouxas

abriu-me as páginas
desentranhou o mais animal de mim
que ao tomar forma era lobo
dentes pra morder e estraçalhar
arrancar pedaço do que lhe fará falta
de igual pra igual lutamos
exigindo o lugar de direito
até que depois de muitas feridas
reconhecemos que era o mesmo lugar
podíamos compartilhar nossa couraça
enfrentar espinheiros e flechas
sobreviveríamos entre lambidas
até a ferida cicatrizar
onde nos matamos um dia
nossa cura nos lábios

átrio azul

os ramos escorrem na contraluz
estamos escondidos numa clareira
e somos protagonistas num palco
apesar dos holofotes acesos
agimos como se ninguém assistisse
nossos diálogos milimetricamente
escritos por dalí ou boñuel
falamos em versos próprios
isentos de qualquer paixonite
fomos entrelaçando em nosso peito
ideias de um mundo caótico
em que se podia andar de bicicleta
e ver o sol nascer no parque
com gosto de uísque barato na boca
os galhos se fecham como cortinas
são panos em tiras rasgadas
que fizeram um dia com nossos sonhos
mas sob sua copa nada nos descobre
embora vestidos, estamos nus
nos olhos um do outro atentos
mastigando outra garfada devagar
mas nos comendo em pensamento

sugestão retórica

se eu fosse você eu ia
embora de toda essa tranqueira que deixaram na sua vida
porta aberta pra rua chuvosa até o chinês da esquina
comprar pão pra tirar o miolo e morder minha boca
peito aberto que vou passar manteiga e te derreter

se eu fosse você eu ia
pegar esse ônibus e descer no terminal aqui ao lado
portão tá trancado e é só tocar minha campainha
segurar minha nuca pra eu não ter medo
meu peito anda trancado mas sorriso arromba

se eu fosse você eu ia
compôr uma canção estúpida com cara de idiota
me deixar besta e me chamar de burra
porque não percebi ainda o que você fez certo
que pra mim foi tão errado ter o pé atrás

se eu fosse você eu ia
esquecia a morena que vocês nunca iam ficar juntos
esquecia o amor da sua vida também que partira
o coração em vários cacos me dá aqui
sei colar e fazer arte psicodélica pra brilhar

na escuridão do seu quarto
seu abajur fazendo contraponto
enquanto você toca seu violão
eu fotografo outra coisa sem nome
sem número e sem endereço

eu, blues

engolia e era azul
a névoa e o céu escuro
as estrelas e a copa das árvores
as sombras e a fumaça

engolia e era azul
o amor e a mágoa
o mantra e a mordida
o doce e a boca amarga

engolia e era azul
da cor do seu jeans
e do anis que brilha antes do anoitecer

eu, melodia

eu fui instrumento nas suas mãos
meu corpo eram cordas timbradas
enquanto composição de um groove
no tom que vinha tocar as costelas
fui vibrando e soando sua canção
que durou instantes pra ser esquecida
me vi um violão afinando no seu toque
fiz arranjos de notas pra caber no solfejo
até eu decorar feito um mantra o seu desejo
nossos harmônicos casando numa oração
eu em terça menor pra ser seu contracanto
e depois me decompus nua
e toda sua ser silêncio na sinfonia
que se faz no entendimento musical do encontro