joão sem dona

o amanhecer é uma transa preguiçosa
no apartamento minimalista de Santa Teresa
rachaduras na parede de gesso
pedaços de pintura descascada
janela enorme que abre pra rua
paralelepípedos hexagonais encaixados
no quebra-cabeça de dois corpos
ao som da Tulipa e gosto dos cigarros
recém apagados no cinzeiro de porcelana
falta café filtrado na cozinha
e eu nua na sala de estar
folheio dos livros de shibari e Niemeyer
o sotaque da planície brasiliense

o amanhecer é um caro atraso
em troca de beijos e roteiros de cinema

maré de ipanema

pela primeira vez
fazia sol no Rio
e eu não te vi
antes de partir
fiquei sem beijos
pra guardar no bolso
entendi, meu amor
o rio de janeiro
em janeiro azul
não tem vínculo
com esse tesão
que tivemos sempre
mas ainda assim
existe tesão no mar
e a maré está alta
não está pra peixe
nem mesmo banho
mas ainda assim
existe tesão em ti
e a maré está brava
não está pra beijos
nem mesmo esses
de despedida e eu
me despeço-te
te despedaço-me
me perco-te
te peço-me
um pedaço
me pico-te
te peco-me
um pecado
que é tu
aquieto-me

próxima estação

quando eu voltar pro rio
será como antes
vou pousar num poema
suspirar e acender meu cigarro
fingir que não fui alvo
na calçada da lapa
vou passar pelo samba
sem sambar descalça
ir à praia sem me desnudar
e voltar de metro

quando eu voltar pra sampa
será como antes
vou pisar nos meus versos
chorar e acender meu cigarro
fingir que não fui ambulante
vendendo arte na paulista
vou atravessar o sinal
sem beijar com meus olhos
ir ao cinema sem pagar
e voltar de metro

quando eu voltar pra casa
não será como antes
vou correr pela praça
suar e acender meu cigarro
fingir que não fui tola
me enganando de propósito
com beijos de olhos fechados
descendo a escada rolante
vou desembrulhar meu peito
esvaziar a caixa toda
e voltar, sem bilhetes

cinzeiro de porcelana

fiquei consumindo-me no seu cinzeiro de porcelana
acesa
você tragou-me
silêncio pensativo
coração esquivo
larguei-me em seu cinzeiro
feito um corpo cansado na banheira
seria num tempo de uma sexta-feira
com trânsito intrafegável nas vias
a janela aberta da madrugada trazia
um eco morto da noite insana
lençóis amassados na cama
gosto de maresia
e nicotina

eu continuo acesa no seu cinzeiro
me desfazendo em cinzas
até apagar as luzes

pagando contas

Tenta me contar as horas, mas como quem conta as notas de dinheiro, passando os dedos folha por folha, assim na minha pele. Encaixa suas digitais nas minhas digitais, trazendo além da virtualidade os amores marcados em labirintos. Corre comigo nesse labirinto, como a cheia de um rio que permeia os leitos. Sejamos leito, deitados e velozes, em desvios e curvas, em lençóis freáticos que vamos descobrindo. Vamos nos descobrindo, tirando todas as censuras, quebrando as leis civis e físicas. Sejamos imorais como corações selvagens sabem ser, brotando da terra feito matos e pêlos e mãos aventurosas. Sejamos carne crua e pulsante no lugar dos relógios tiranos, porque o tempo – ah, o tempo – não é da conta dele o nosso desejo.

sê de mar

água
que corre nas veias
é vida que anseia
arrasta em correnteza

água
desiste da hora
dentro de mim só chora
com medo de ser mar

água
em mim é oceano
sou eu que te chamo
feito sereia de canto

água
qual é seu segredo
será que mistério
que faz ter medo

água
talvez um veneno
pro mundo pequeno
que vai naufragar

água
em seu ser cristalino
por dentro um menino
que não sabe nadar

água
vem se cachoeira
vem ser tempestade
vem cá me afogar

água
não vem tirar onda
eu pago esta conta
pr’em ti mergulhar

água
copo meio cheio
vazio é receio do mar
com sede de cais

água
vem ser cachoeira
vem ser tempestade
vem cá me afogar

água
mata minha sede
cai na minha rede
e me ensina a pescar

água
sinônimo de beijo
é o nome do seu beijo
é beijo com gosto de mar

relógio biológico do beijo

beijo no contratempo
sem tempo contado
sem tempo esgotado
beijo só se for
em tempo inacabado
ou beijos afobados
com tempo desacelerado
em relógios quebrados
ou vôos cancelados

tempos que demorados
nos olhares recém-casados
desejos sintonizados
em rádios desritmados
de tempos descompassados
com beijos contracenados
descompasso
contratempo
de lábios timbrados

beijos inacabados

eu virei um abajur

E simples como um peixe, fui fisgada.

A moça da aura verde passou deslizando e me chamou feito uma sereia naquele mar de gente. Segurava nas mãos um recipiente enganoso. Que sincronia encontrar-te pela terceira vez na vida nos últimos três dias. Ela me deu um abraço e antes de ir embora passou-me seu perfume de brisa.

Fui invadida tal como uma favela. Como se tivessem aberto uma torneira de elétrons sobre mim, eu tivesse sido eletrificada por um segundo. Eu acendi no escuro, pisquei feito uma lâmpada de abajur. Eu virei um abajur no lugar da cabeça do manequim. Meu peito ficou plástico e minhas pernas foram engessadas no concreto. Tudo isso, intensamente, passou-se num segundo, como se tivessem me roubado de mim neste segundo e de repente me reencontrei com meu corpo e voltei a perceber onde estava naquele alto mar. Passei a deslizar.

E simples como um peixe, fui fisgada.