acaso paulista

uma dúvida e dois copos, por favor
com uma porção de sorrisos
sob as luzes coloridas
na mesa sem número do terraço
te ofereço um flerte do meu cigarro
traz mais uma e a conta
divide por dois os nossos acasos
passa no crédito que um dia eu pago
a corrida e o desejo com juros
mas antes de dar partida
e apertar os cintos, me vê essa boca
e as duas mãos livres pra viagem

poema marginal piegas

ponho coltrane pra tocar, espero chegar
meu poema marginal pra te presentear
uma cuspida suja no chão de asfalto novo
no entanto, quando tento escarrar-me de horror,
pego-me sorrindo à lembrança de teus beijos
ontem não consegue ser um chiclete usado
tuas mãos às cegas sobre a seda em meu seio
meus lábios às pressas buscando teu afago
eu vestida queria-me nua
tu me olhavas quase rindo
como se eu fosse a única na rua
de fato era: acaso lindo

clarão dos olhos

está claro quando nos fitamos: as luzes acendem
os pulmões acendem grandes fogueiras
pegamos fogo
perdemos o ar
as faíscas sobem pela garganta
queimam as palavras no caminho
o silêncio se incendeia
brilham chamas pelos olhos
ficamos hipnotizados pelo calor

até que piscamos

feito um jato d’água
apagamos o tiroteio de fagulhas
voltamos a respirar fumaça
como se nada tivesse sido dito

mas foi

a fundo

espetáculo de luzes
cromia e sintonias
não corre assim
na minha direção
como se estivesse deserto
– uma multidão – areia fina
na pele abre erosão
quando explode: estrela
se eu mergulho nos seus cristalinos
cachoeira obsoleta nos olhos
arrepio em noite quente
profundezas onde me perco
seu ser desconhecido treme
nossas buscas translaçadas
reconheço (neste brilho todo
tem me resgatado da escuridão)

à sombra de yoko

[rascunho ou esboço de um primeiro capítulo]

Era bem possível que ninguém soubesse porque isso ou aquilo acontecia. Ou mesmo porque não acontecia. As coisas não costumam fazer sentido se as pessoas envolvidas não fazem questão de que façam sentido. Então muitas vezes, você pedia o táxi, dizia para onde ir e não perguntava o nome do motorista. E outras vezes ligava o computador, abria um blog qualquer, deixava um comentário despropositado e a probabilidade de acontecer algo extraordinário por causa disso era mínima.

Acontece que um dia desses, Luíza ia fazer algo inútil que poderia se tornar uma gigantesca catástrofe em sua vida. Ou talvez não fizesse nada e ia continuar a mesma Luíza de todos os domingos. Ou então ia fazer algo que poderia ser chamado de lance de sorte, destino, acaso ou até mesmo loucura.

Ela era esguia, muito branca e sem marca de sol. Os olhos eram mestiços, porém grandes, bem grandes. Podiam tudo ver, porém, mais do que isso, podiam tudo mostrar. A boca também era bem grande, um sorriso tão extenso quanto uma rodovia no deserto. A voz combinava com a boca, e a gargalhada combinava com o sorriso. Seus lábios sempre vermelhos, as unhas quase sempre descascadas. Não era alta, nem sequer precisava de saltos para parecer maior do que realmente tinha de altura. Era capaz de ocupar uma cama inteira sozinha e sua boca capaz de gritar uma música inteira de cor. Quem se lembra de Luíza, vê uma menina pequena de vestidos limpos com dobras amassadas. E a flor, sempre podia ter uma flor nas mãos e um maço de cigarros no bolso da calça. Tão inocente quanto um espinho.

Que furou seu indicador naquela tarde. Veio um pingo de sangue escuro. Não doeu tanto, mas a sensação foi como se perdesse a virgindade. Com um espinho? Por que não? Afinal, as belezas das flores precisam deles pra aparecer.

Ela se sentou na calçada, eram umas cinco horas.

Não passavam muitos carros na rua de paralelepípedos, era uma rua por onde só cabia um carro por vez, de tão estreita. Havia mais muros do que janelas e mais portas do que garagens. De certa forma, os barulhos da cidade não faziam muito eco por ali, talvez fossem barulhos grandes demais pra caber naquela rua antiga. A maioria das pessoas nem sabiam que ela existia, o que de certa forma era bom, assim Luíza podia ficar ali faiscando seu isqueiro sem ninguém lhe perturbar. Não precisava de muito para isto, apenas o silêncio já era capaz de ser bastante perturbador.

Estava fazendo errado. Era o momento errado, o homem errado e ela era possivelmente a mulher mais errada que já encontrara na vida. Pra começar, ela nem sabia exatamente o que queria.

Ela queria andar pelo centro de São Paulo à noite. Ia haver uma multidão, andando caminhos diferentes. Ela queria ouvir Jorge Bem, fumar um cigarro e ter sobre o que escrever depois. Desculpe, mas não foi isso. Ela precisou assistir Velhas Virgens, berrando para abrir as pernas, com aquele cheiro de vodca barata e cerveja com urina fermentando no asfalto. Cansou de estar no lugar errado e de fazer o que fosse só porque era conveniente.

Ela era sempre inconveniente. Havia gostado dessa palavra, tinha um certo som meio latino de se falar, era uma palavra grande, dessas que se enche a boca e não se cansa de pronunciar cada sílaba demoradamente, até que as pessoas se cansavam e não diziam mais. Ela tinha o dom de cansar as pessoas e fazê-las desistir de brigar. Brigas nunca eram convenientes, se for pensar bem. Era por isso que ela sempre vencia.

Ali na calçada, cruzou as pernas. Seus tornozelos ficariam mais bonitos com uma tatuagem de tribal e os pés com uma sapatilha. Ninguém soube dizer qual o número dos seus pés. Ela ainda usava all star. Apoiou-se nos braços para trás, levantou a cabeça com os cabelos longos caindo pelas costas. Ela estava cansada e passou-se uma hora ali, cansada. Até que começou a cair o sol com sombras e naquela ruazinha a noite começou antes, porque era estreita demais para o sol passar. Então ela deitou na calçada, seus cabelos eram um tapete.

Esperou olhando sempre entre os fios de eletricidade. As estrelas do começo da noite passavam por ali, como se pulassem corda em slowmotion.

– O que está fazendo, Luíza?

Ela levantou-se rapidamente, pra fazer de conta que não achariam aquilo tolice.

– Oi, Fábio – Era mais tédio que outra coisa. – Estou contando quantas estrelas passam em uma hora.

Ele continuou fitando-a estranhamente. Ela ficou de pé, enquanto revirava os olhos, entediada com aquela pobreza de mente. Ele não percebeu o desdém porque estava reparando nas bitucas de cigarro caídas por ali no chão.

– Você andou fumando?

Ela andou em direção ao portão, sem responder. Pegou a chave pendurada com uma pimenta vermelha de plástico para abrir o cadeado. Segurou forte e não colocou a chave. Parecia que se abrisse o portão, teria que deixá-lo entrar como todos os dias. Não queria deixar. Achou melhor ter certeza

– Fábio, se eu andasse nua numa praça, o que você ia pensar?

– O quê?!!

– É – fez ela mexendo as mãos no ar, como se espantasse um mosquito. – Imagina que um dia você foi tomar sorvete na praça e eu estivesse correndo sem roupa ali.

– Luíza, você tem umas idéias sem pé nem cabeça. Vamos entrar.

– Não.

Ele parou, fazendo outra vez aquela expressão de estranhamento. Toda vez que ele fazia isso, ela se sentia uma extraterrestre em sua própria rua, ou em sua própria casa. E, cacete, a casa era dela. A rua também era dela. Era muita invasão de privacidade querer julgar seu comportamento dentro do seu território. Não havia paz no mundo hoje em dia?

– Não quero que você entre.

– Por quê?

– Porque sim.

Luíza encostou-se no portão e guardou as chaves de volta no bolso da calça jeans. Cruzou os braços e sua boca longa não estava mais entreaberta.

– Você é muito pudico, Fábio.

– O quê? Pudico? Do que você está falando?

– É, pudico, sabe, aquela pessoa que tem vergonha até de sexo.

– Lá vem você de novo com essa história…

– Sim e vou falar! Vou falar mil vezes porque você não entende!

– Não entendo mesmo!

– Okay. Então não vou mais falar.

Ele olhou pra ela, porque não fazia sentido. Nunca fazia sentido.

– Desisto, Fábio. Não vou mais argumentar pra te convencer de quem eu sou e de que não sou certa pra você. – Ela esperou que ele a interrompesse, mas ele continuou esperando pela próxima frase pra ver se faria sentido. – Em vez disso, vou dizer que você não é mais o certo pra mim.

Ele demorou e então abaixou a cabeça para os seus tênis desamarrados. E não falou nada, esperou qual ia ser o próximo absurdo que ela falaria. Luíza destrancou o portão, entrou, trancou novamente. Olhou e Fábio continuava com aquela expressão de estranhamento, do outro lado das grades. Ela revirou os olhos pela última vez e entrou em sua casa. Encostou-se à porta do lado de dentro, aquela sala com cheiro de tédio e eco dos barulhos de vídeo-game. Bufou uma só vez, de alívio.

Ainda estava muito silêncio. Abriu o armário de vidro e ligou o aparelho de som, colocou na segunda música da Janis e foi isso. Pôde então fechar os olhos e sua boca começou a torcer debochada. Ela começou a rir alto, rir, rir até sua boca se tornar uma garganta. Ela tirou a camisa de linho branco, estava usando um soutien azul claro que tirou também. Tirou os all star, as calças jeans rasgadas no joelho e a calcinha.

Não havia perigo de alguém chegar, porque todos haviam ido à missa. Ela riu mais alto. E correu, sem nenhuma roupa, pela sala, dando a volta nos móveis, ficou girando e rindo e berrando junto com Janis, but all I know that she left you, and you swear that you just don’t know why!  Sua voz estava até rouca de tanto rir e seus joelhos ossudos estavam doendo de tanto pular. Ela suava e não precisava de nenhuma roupa, tirou a aliança também e jogou por ali. Ela rolou até atrás da mesinha de canto. Ela dançou e riu, pulando em volta do sofá.

Então seu pé direito deu um giro e seu dedo mindinho foi parar no pé do sofá com uma velocidade que poderia ser trinta quilômetros por hora. E na hora a dor foi tamanha que não se sabia se ela ainda estava rindo mesmo ou não, enquanto Janis gemia nas caixas, come on and cry, cry baby

Em um segundo, ela se encolheu no chão lustrado feito um feto, segurando o pé e gemendo. Malditos sejam os sofás. E riu, segurando o pé ainda, os seus olhos fechados prestes a lacrimejar e a boca aberta, rindo cada vez mais alto.

carta para o senhor da loja de discos

Parei porque queria lhe escrever uma carta manuscrita e sem linhas retas. Você nunca recebera uma carta e eu queria lhe fazer uma obra de arte, pra poder contar aos netos que a única carta que recebeu da vida foi de uma carta de arte – a obra do amor dura pra sempre. Ou o contrário. A transa poética arranca um fôlego e paixão não correspondida arranca um suspiro. Que dirá se eu recebesse de volta outra correspondência?

feitiço pra dois

pra te abrir, talvez eu precise de uma navalha
cortar as entranhas ao meio
escarafunchar o seu peito
e assistir os músculos trêmulos às falhas

quem sabe assim a pele deixa de ser couraça
você me abaixa os seus escudos
só com os olhos eu te desnudo
que num espasmo mórbido me abraça

aprendo a deixar minha poesia às traças
e te esfaqueio num golpe
eu me engasgo num gole
meu feitiço no muro permeável ultrapassa

me acorde

seu gosto
seu toque
seu ar

eu fico um sorriso
fácil debaixo da sua barba
onde te deixo o beijo e a mordida
onde me esqueço de ser ferida

e de ser qualquer cicatriz

a gente é algo irrefreável
que não cabe na contagem

do tempo

tentei dormir mas
queria mesmo era estar acordada
no seu acorde
os olhos que não se fecham

está calor e quente
está úmida e sede
está uma ansiedade

de corpos pra se reencontrarem
estando a centímetros de distância
a gente se alcança
mas nega essa tensão
de um querer extremo
é tempero

antes de dormir, acordo até cedo

túnel

dentro de um túnel, está vazio e noturno. as luzes amarelas acesas falham. eu sei que se eu continuar caminhando, vou chegar à luz do dia. você me emprestará um isqueiro pra acender meu cigarro, com seu sorriso de coisas bobas. vejo o contorno da sua sombra, quero te cantar uma música nova que ainda não compus. uma melodia estranha que você ouviria enquanto os muros caem. mas aqui diante de você eu só me sinto assustada. fico emudecida, quero me esconder atrás de qualquer arbusto. quero só te olhar de longe, sem o risco do encontro. admirar o que talvez tenha sido um amor de uma calçada na paulista e algumas escadas rolantes. e depois fugir. vou correr quilômetros por dentro desse túnel, continuar no escuro. aqui não chove, estou segura e seca, longe da sua boca.