não é sobre você

eu gosto de janelas
que dão para a rua iluminada
que refletem faróis noite adentro
onde posso me apoiar nua
onde baforo meu cigarro
a silhueta contra as estrelas

eu gosto do quarto andar
com o número na sua porta
a resposta para a pergunta universal
guardamos dentro como uma medida
que cabe na sua mão quando me toca
ou nos seus pés quando te fotografo

eu gosto do seu café
o gosto de canela no fundo
nenhuma xícara limpa na pia
marca de batom na borda
gosto de manhãs que abraçam
e do seu beijo de despedida

eu gosto disso ou daquilo
detalhes afrescos de sorriso
tom de voz aveludado
espelho no elevador
botas gastas de couro
camiseta vermelha que dorme

eu gosto até do acaso sacana
de você estar no lugar errado
na hora errada do meu sábado
almoço agridoce na praça
enquanto deslizo a calçada
querendo afundar num buraco
pra que não me visse

mas rindo por dentro por ter visto

apaticamente fechado

te comi a esmo
pra ver se algo me acometia
se a carne pulsava
se o sangue escorria
mordi pra arrancar pedaço
levar-te em minha boca
digerir sua insanidade
pra ver se feria
pra ver se doía
te comi até o bagaço
pra ver se algo me atingia
se eu era flechada
ainda viva ou se morria

mas continuei a esmo
sem ferimentos
sem costura
não existe cicatriz na apatia

ressaca de mar

quando mar azul me abraça
mergulho a calmaria
banho-me na frequência
sua respiração em ondas
maré dos seus afagos
correntes em meu corpo
transita em minhas artérias
arrastando a apatia
espuma na praia da pele
mar que arrebenta
cada rocha do meu ser
desfazendo meu mundo
esculturando-me de novo
repetidas vezes
que fico irreconhecível
pela manhã sou outra
praia limpa e descoberta
natureza bruta que acorda
arde meus olhos
sua maresia que me envolve
respiro lenta
atenta em seu peito

quando mar azul me abraça
eu me calo todo o caos
à deriva em seus beijos de sal

espalhadores

quebrava um vidro de tinta
no meio do chão de taco
esparramava-me líquida
manchando rodapés e paredes
eu espirrei desacelerada
chuva no meio do quarto
pra ser pintura fresca
e a carne fresca
entre as roupas amassadas
eu me vi nu e te vi nua
eu mulher e você homem
trocados no espelho dos olhos
na bagunça da sua casa
eu tinta e você chão
esparramamo-nos
pra ser bagunça um do outro

rua sacramento

desculpa eu preciso falar sobre essa rua
mas não aquela rua da canção de ninar
que eu mandava ladrilhar
com confete de carnaval
a rua que eu atravessei correndo
em mil almoços corridos que você pagou
aquela que tinha uma travessa
onde os fotógrafos saem procurando
casais pra perseguir enquanto tomam café
aquela cafeteria com a livraria junto
nunca paramos pra conhecer
mas voltamos mil vezes por ali
naquele restaurante de pedreiro
com seus potes de doce de leite
eu atravessei a rua certa noite
como quem sabe o caminho
já sabendo o caminho pra boca dele
e o caminho de volta pela manhã
agora reabriram um bar temático
onde os garçons te chamam por milady
e monsenhor com taças de vinho
nós teríamos passado tantas noites
bebendo e fingindo ser nobres
numa época antiga e medieval
cantando até cantigas fictícias
eu atravessei aquela rua onde você morou
mas subi para o quarto andar
acendi meu cigarro e fiquei na janela
nua e olhando a rua solitária
como eu fiquei solitária me vendo passar
atravessar mil vezes aquela rua
e chegar do outro lado afinal
sem você pra me assombrar
com sua casa demolida
onde construirão outro edifício
para amantes se amarem no quarto andar
como se fosse sacramento
como essa rua que não era minha
nem mandei ladrilhar