Último abraço na neblina

Depois do abraço: fundo
onde me encontrei com minha Calma,
e você, desesperado, fugiu
como o diabo foge da cruz

eu chorei aquela noite
como não fazia há mais de ano,
chorei de coração partido, a Dor
da frustração quando a gente descobre
que tá amando Sozinha
numa via de uma mão só

Me vi indo naquela rua escura
e doeu demais esse abraço.

Depois disso eu parei
de sentir – meu Corpo
se lacrou feito uma múmia
embalsamada contra sentimentos

eu parei de sentir tudo – até fome.

Virei uma pedra, uma escultura,
uma estátua, um jazigo, uma lápide.
Meu rosto ficou fundo,
cavado e cinza:
pensei que ia morrer mas
não tive febre,

estava Viva
como uma planta murcha
saindo da terra.

Parei de sentir como se
tivessem me desligado da tomada
ou como se dentro
tudo já fora Tão sentido que
a vida útil se fora também.

Fiquei só os olhos vidrados
e acordada.
A janela fechada, os carros passando,
o ponteiro do relógio seguindo,
outra volta. Passei dias,

ofuscante torpor.

Quando meu Ser sobremergia
era uma ânsia e o choro voltava
alagando qualquer intervalo.

joão sem dona

o amanhecer é uma transa preguiçosa
no apartamento minimalista de Santa Teresa
rachaduras na parede de gesso
pedaços de pintura descascada
janela enorme que abre pra rua
paralelepípedos hexagonais encaixados
no quebra-cabeça de dois corpos
ao som da Tulipa e gosto dos cigarros
recém apagados no cinzeiro de porcelana
falta café filtrado na cozinha
e eu nua na sala de estar
folheio dos livros de shibari e Niemeyer
o sotaque da planície brasiliense

o amanhecer é um caro atraso
em troca de beijos e roteiros de cinema

destruição

destroços de alma vacante
fico estilhaçada no cosmo
contagem regressiva no infinito
arma de destruição em massa
que se instala
feito vírus
no seu antebeijo
explosão atômica
de pouco caso
de muito caos
ranger de dentes
unhas na lousa
arrepio tênue
eu morro de sede aos poucos
se sua boca vai embora

mordi a vida como quem morde a língua

é tão verdade que a arte imita a vida, mas tão mentira.

toda arte imita, mas a poesia é a única capaz de ser verdade absoluta a respeito do que vivemos. vide os piriguistas. sem desejo, sem suor, sem sexo, sem lambida, sem beijo – não existe qualquer poema.

mas deixemos, por ora, o erotismo de lado. que ultimamente não me convém. vamos falar de sufoco: esse que enclausura o pomo na sua garganta enquanto você assiste a arte. hoje eu consumi arte numa performance perturbadora, dei uma baita mordida. esfomeada, desesperada, quase engasguei.

certos pedaços de arte não dá pra mastigar. antes que a gente pense em mastigar pra digerir melhor, foi tarde, já engoliu-se inteiro. no amor, também funciona assim. antes que desse pra pensar, eu te engoli inteiro.

desculpa.

a vida pesa tanto, sabe. os ombros pendem com as mochilas, os varais pendem com as roupas. caímos. às vezes de joelhos, às vezes de cara. nem sempre pra fazer um boquete que se preze. nem pra isso. aliás, nos últimos tempos, tem servido apenas para arranhões e cicatrizes. o que são uns pontos a mais na costura intrínseca da vida?

veja que não te faço perguntas retóricas. eu realmente queria saber. como você está e se perdeu peso como eu e se está pálido de tanto se ocupar com burocracias fúteis e deixar a vida passar e me deixar passar e atravessar a rua. suas mãos abanando e as minhas segurando o guarda chuva. bem que podia estar segurando outra coisa…

as reticências imitam a vida: minhas insinuações sempre foram tão claras que desbotaram quando pendurei no varal para secar. os desenhos da rafa continuam mais bonitos, os cabelos da ori vão crescendo, a boca da bia deixa saudades, a luísa mandou abraços – já eu: que te ofereço além do caos?

bom, eu continuo poesia.

garça branca abre as asas

A grama recém cortada amarela na luz no poste. São seis horas com calor de três e escuridão de oito. Tudo se evapora. Eu, quando na caixa do meu ventre, sinto que borbulho e entro em ebulição. Minhas mãos se evaporam, mornas e leves, penas que decolam lentamente numa dança sem par. Invisível você me guia, como se vestisse com a minha pele e os meus ossos e entrasse em cena. Por alguns minutos sinto que tenho sido você a cada passo calculado de movimento. No entanto, estou tão cheia de mim que não caberia mais nada além do meu esvaziamento mental a cada respiração. Eu conto em oito tempos em oitenta vezes em que fomos tão oito ou oitenta sem encontrar o ponto de equilíbrio pra dar as mãos quando se precisava. Mas sozinhos sabemos dançar tão bem uma quase valsa voluntária. Meu corpo ainda tem mais ciência de onde estou indo do que eu mesma. Minhas mãos levitam, como se eu tivesse aceito um convite pra dançar. É só a luz amarela que me assiste enquanto alço breves voos, solitária e esguia. Garça no meio da praça, é proibido pisar na grama.

aquele amor que tivemos

A falta que eu devo fazer se compara ao meu sofá. Sento-me aqui, tiro as roupas e as censuras. É noite, quase fria de semiestação. Vejo um filme e admiro a fotografia arquetípica e encaixada. Cidades urbanas que tanto gosto, tem gosto do cigarro aceso aqui neste cinzeiro novo. Eu fumo meu cigarro, com a pele. Visto somente uma calcinha blasé e sem graça. Mas eu gostava que você me achava sexy assim mesmo. Pedia-me pra fumar nua e você me assistir enquanto escrevo, ou canto ou penso na vida. Era aquele nosso silêncio que fazia sentido. Eu pintei minhas unhas, ficaram toscas e mal feitas. Eu sou um desastre para as coisas comuns e você me assistia. E eu ficava pendurada em seu sorriso, aguardando. Você gostaria desse filme que escolhi agora, desta cerveja que escolhi agora, desse silêncio que escolhi agora. Eu guardo uma nostalgia, mas não me deixa vazia. Por sinal, me preenche momentaneamente essa saudade. Feche os olhos e sinta meu beijo com gosto de cinzas. Acabei de tragar outro suspiro por saber que um amor assim foi bem feito por um tempo e me bastou.

avenida brasil

disse adeus como quem acena do ônibus
enquanto você reluta em parar de olhar lá do ponto

no primeiro ponto da avenida brasil, todas as chegadas e partidas
todos os quase encontros e os desencontros
todos os quase beijos que vêm dos olhos
todos os nossos quase eu-te-amo em silêncio
na esquina da avenida brasil, passa-se o ponto
onde houve um bar com suas mesas redondas largas demais
onde tomamos chope e depois fomos tomar um ar
onde tomamos coragem e nenhum juízo
no cruzamento da avenida brasil, atravessamos a via láctea
passamos sobre um rio quase seco, um quase esgoto
ali onde um manequim assiste os casais passarem de mãos dadas
no ultimo ponto da avenida brasil, todos os corações partidos
dentro de ônibus sem rumos e sem itinerários
olhando o relógio parado no mesmo santo horário
do meu atraso de todo dia dentro do seu abraço
eu disse a deus como que aceno do ônibus?
se no ponto só há eco, sombra e um fantasma
dos amores que tivemos pelas manhãs, tardes e noites?

questionando, eu disse a deus
relutante, eu disse adeus

por falar em saudade

por falar em saudade
Rua Augusta, escondida
se não for de verdade
não tente, ligação perdida

outro dia, outra tarde
Alameda Santos, na esquina
um cigarro covarde
na boca de uma menina

foi um tiro no escuro
não foi sangue ou chacina
foi caminho inseguro
nesta vida cretina

por falar em perigo
não deixei numa carta
um segredo antigo
de mentira, estou farta

mas se ainda é cedo
quanto tempo passou?
este nosso segredo
não foi Deus quem criou

quero ver onde vai
ou senão vai embora
essa chuva que cai
não é lágrima agora

são dois versos mal feitos
por favor, não me esqueça
faça falta direito
antes que amanheça

banho de espuma

Os dedos do pé ficavam para fora da água observando o movimento das ondas, enquanto a gente segurava a respiração e mergulhava a cabeça. O mundo emudecia e eu ficava ouvindo seu coração cantando Beatles, a gente fingia que aquilo não ia acabar outra vez. Aqui, lá e qualquer lugar podia ser a hora de dizer, mas ninguém dizia, era mais certo entupir os ouvidos de água.
A gente era um sorvete de baunilha, o Monte Everest e todos os gostos bons e lugares que faltavam conhecer. A gente tinha o dom de imaginar todos os cavalos selvagens cavalgando pela encosta, como se fosse só isso, fugir. E a gente ria tão alto, fazendo as bolhas de sabão explodir. Isso se chamava beijo.
E tinha gosto de sabão e fazia cócegas.
O melhor jeito de controlar sua intensidade e deixar o tempo irresistível. A gente gastava tudo o que tinha, jogava para o alto. Era neve. Ia caindo do teto… eu soprava todas as bolhas, eu até suspirava. Suspiro é riso, quase doce, é a sobremesa.O vapor da água ia subindo pela face, eu nem morri de vergonha, eu atingi você. E você se vingou com mais força, até que eu me afoguei, engasguei.

Ainda tem gosto de sabão.

sob os pinheiros

Se eu tiver que pedir socorro, ignore-me. Existe tanta necessidade, que ordem e desejo se confrontam no escuro. Precisamos desocupar nossos corpos, encontrar nosso caos interno que não fica em silêncio. Você vai me esquecer, assim que fechar os olhos. Seu rosto amanhece um borrão embaçado, só refaço seus olhos me buscando onde nada se encontra. Tez & tesão na ponta dos dedos, como digitais que se desmancham. Olhar pra trás, olhar pra trás, por sobre os ombros. Todos observam e sabem. Fonte & fuga nas paralelas das sombras, como fluidos que preenchem os espaços vazios. Não resta nenhum centímetro que não se alcance, tudo é táctil.