repúblicas

hoje me lembrei de escrever uns versos
que já há meses não me atrevo
me viciei nos meus recomeços
e me afundei no chão de concreto
vi meu país virar nevoeiro
e um tornado destruir a cidade
nosso outono virou tempestade
e a crise tomou o mundo inteiro
lá na França estão queimando pneus
na América só se fala em ocupação
no Brasil não tá diferente não
mas a dívida quem paga sou eu
porque trabalhamos todo santo dia
comendo o pão que o diabo amassou
e os burocratas andam sem pudor
pra roubar merenda e devolver pancadaria
ando cansada de me manter pedra bruta
estar na luta sempre na defensiva cansa
se não cuidar a depressão te alcança
e ainda te julgam vadia e filha da puta
mas nasci nesta terra da mãe gentil
onde na casa cabe até a mãe Joana
e a mãe de Deus abençoando a fama
até da puta que te pariu
enquanto isso o planalto inunda
e aqui embaixo o povo inflama
não vai sobrar uma rua de lama
se continuarem metendo o pé na nossa bunda
esse país de todos, uma ova
pois cada um deve saber seu lugar
até na minha voz de poesia fez calar
com o medo de me cavar a cova
enterrar o sonho da democracia
roer os direitos do trabalhador
negar voz política ao professor
cassar o futuro em prol de uma hipocrisia
vamos lutar contra a corrupção
deixando corruptos no poder
fingir que a violência não vai doer
e que a liberdade é uma contradição
uma menina contra trinta e três
uma criança com pistola na mão
ministério das mulheres em extinção
e tem estuprador falando como aprender
que porra temos pela frente?
alimentar os sonhos com insônia
deixar privatizar até a Amazônia
pra perceber que o erro foi da gente
de colocar a ordem a cargo de um insano
e o progresso a cargo de um pastor
ver a educação no raio privatizador
e a faixa presidencial com um tirano
a porra do Brasil continua uma canção
do Raul Seixas, Cazuza e Legião Urbana
nada fizeram sobre Mariana
e Temer é verbo em conjugação

cidade sitiada

que bela fogueira
aquece minha esperança
arde a voracidade de justiça
ilumina a luta dos trabalhadores
no coração do brasil em chamas

que esplendor de brados
ensurdece a esplanada
cobre o bombardeio de trevas
cala os pistões dos gatilhos
ecoa no palácio da alvorada

poema marginal piegas

ponho coltrane pra tocar, espero chegar
meu poema marginal pra te presentear
uma cuspida suja no chão de asfalto novo
no entanto, quando tento escarrar-me de horror,
pego-me sorrindo à lembrança de teus beijos
ontem não consegue ser um chiclete usado
tuas mãos às cegas sobre a seda em meu seio
meus lábios às pressas buscando teu afago
eu vestida queria-me nua
tu me olhavas quase rindo
como se eu fosse a única na rua
de fato era: acaso lindo

1º de abril

as águas de março fecharam pouco esse verão
nesta sexta-feira fecharam as ruas com nãos
mas o vigarista assinou a curva torta: nossa forca
enquanto paraguaios botavam fogo à força
assistimos o gol, o samba e a piada do brasil
só pode ser pegadinha no primeiro de abril
povo vestido de trouxa a velar a aposentadoria
até quando rirão da américa latina em demasia?

autodestruição

todo dia somos violência invisível
somos lama da pior categoria
contaminados de ego e falácias
nosso peito é atravessado
por avalanches e tiroteios
nosso sangue continua morno
matamos nossa humanidade no prato
com facas cegas e mordidas avarentas
todo dia somos terroristas do mundo
todo dia assassinamos os bons dias
derrubamos as barragens do respeito
mas mantemos nossos muros levantados
mesmo na dor do luto estamos sós
não sabemos compartilhar dor
e na falta de uma qualidade cara
ficamos destruídos acusando uns aos outros
somos culpados por doer a morte do rio
somos isentos de perdão nas chacinas
amanhã sua vida continuará pagando as contas
é o preço desumano de ser indivíduo
no mundo grotesco capital

ensaio sobre dentes sujos

todos mastigam
fiapos de carne e mato seco
vontades híbridas de cimento e farinha
papéis molhados na chuva e lábios rachados
todos mastigam as bocas
com fome e com sede e com desejo reprimido
pães amanhecidos e borrachas usadas
tampas de caneta e unha roída
todos mastigam seus corações cozidos
com muito sal e pouca ousadia
pedaços cerzidos de suas razões
todos mastigam as colchas de retalhos
e os mexilhões nojentos nos pratos
e batata frita em óleo frio
todos mastigam
com gosto medíocre de prato feito
em vez de se servir às colheradas
carne mal passada e verduras frescas
e vinho branco com molho madeira
todos mastigam
mas só a serragem
mas só a ração
mas só as farpas da vida

homem vertical

quero disto um subúrbio
ele feito de mau hálito
quero um poeta, um detento
esculpido no escuro
sob um semblante pálido
um coração fedorento

que de menino nada tenha
que de adulto subestime
vem das calçadas e dos becos
uma ambição que se desenha
uma garoa então define
o seu silêncio rouco e seco