Retratos de uma viagem

Dez horas dentro do ônibus são o suficiente para bagunçar o ócio criativo. Os feixes de luzes de leitura me bastaram para retratá-los enquanto íamos de Syrius B à fazenda ilhada da psicodelia.

Gratidão pelas parcerias!

correndo com lobos

como uma fera
eu ataquei seus instintos mais agudos
meus dentes afiados no pescoço
minha mordida voraz
sua quase morte
empírica

como um bicho
eu avancei em sua pele de cordeiro
te desnudei em carne e osso
mordi seu pedaço de vida
e almocei suas tripas

como um monstro
eu cacei suas insanidades
dilacerei seu extremo desejo
de permanecer sangue
na minha boca

como uma fêmea
eu dominei suas inconstâncias
despi minha pele de lobo
surgi animal em mim
natureza original
entregue

100 watts

Como num sobreaviso, ela já sabia. Vinha uma pontada cruciante, sem doer. Mas o medo de doer era um interruptor. Luz acesa era um desespero. Ela se perguntava quantos dias e quantas noites, às vezes fingia o mundo no travesseiro, outras vezes escondia. Mas aquele tic-tac continuava a persegui-la, como o tempo que fingia paralisar, mas corria. Corre, meu amor, corre, ainda é cedo. Quando anoitecer, se for demais, não há volta. E, no meio do amor e do medo, veio sombra. Ela não conseguia mais encontrar seu rosto, parecia ser outro sorriso, outro olhar. Algo escarnecedor. Entrou em pânico, será que acordara de repente em outro lugar? Outra pessoa seria, ou a mesma? Pra saber, precisaria acender a luz.

oração da renúncia

são como meras espirais
nós nos curvamos em fuga
correndo por estas radiais
norte, sul, leste e oeste
e numa inércia centrifuga
voltamos para que recomece

não sou deus, mas nem o diabo
poderia querer este destino
quantas vezes já me acabo
e nunca passa esta tormenta
me deixa em paz, menino,
não há nada que te alimenta

ave Maria que me perdoe
mas toda noite rezo em vão
peço que a úlcera amaldiçoe
cada segundo do teu tempo
e que na ausência de coração
encontre caos por acalento

que vem torpor

olhos embaçados no espelho
existe uma vontade de pedaços
cacos de vidro

ela entoa mantras de cadáver
ressoam escorridos pelo corpo
socos no estômago

pulsos frios, pés encolhidos
mais de dor que de prazer
somente dor
somente dor
somente dor

a profecia

não houve simetria
apenas o lado reverso
reflexo de algum passado sem remédio
a última pílula da vida
o único segredo sentado na calçada
viu a chuva
escorreu as doenças humanas pela rua
não se deixou levar
a carcaça é dura
os cabelos brancos
perguntem do beijo
que envelheceu uns anos
é úmido com gosto de defunto
não é pra ser bonito

o que tem na saudade?

mais alguém morto
de ciúmes
de desejo
de poder
água negra ecoando
no centro da fonte
alguma canção desidratada e poluída
com gemidos de quem se assassinou
um beco sem saída
rua escura
gato manco
um assobio de quem veio trazer sua morte
de tanto sangue seco
depois que parou de chover
não se ouvem anjos
veio o silêncio canonizar seu amor