baião de dois

quando atravesso a heitor penteado
lembro-me daquele almoço de domingo
toalha xadrez na mesa pra dois
o baião de dois e a fome de dois
a conta que a gente nem podia pagar
mas que pagamos satisfeitos e civis

quando passo pelo cemitério
a subida eterna da arcoverde
o peso de um mundo nas costas
mas a leveza de quem não dormiu
a noite inteira, a noite inteira
mas que atravessamos felizes

quando passo pelo bar do seu zé
aliviada sei que abafei lembranças
comi e bebi com outras pessoas
a quem sempre indico a esquina
empanada de carne seca e mandioca
pra mim com gosto da sua boca ainda

quando atravesso aquele sinal amarelo
lembro-me da chuva que começou leve
depois apertou como nosso abraço
que até a sensualidade molhou o rosto
na varanda da presidência da noite
guitarras e cítaras e cigarras

Reza pra Santo Antônio

te querer é uma piada pronta
o avesso do ócio
ecoa uma prece
que a gente nunca se encontre

todo trombamento é uma sombra
te atravesso os olhos
e tu a minha boca
cruzamento no sinal fechado

o desencontro é uma oca ironia
eu te reinvento
e tu a mim socorre
o ludo, a poesia casual e a lâmina

maré de ipanema

pela primeira vez
fazia sol no Rio
e eu não te vi
antes de partir
fiquei sem beijos
pra guardar no bolso
entendi, meu amor
o rio de janeiro
em janeiro azul
não tem vínculo
com esse tesão
que tivemos sempre
mas ainda assim
existe tesão no mar
e a maré está alta
não está pra peixe
nem mesmo banho
mas ainda assim
existe tesão em ti
e a maré está brava
não está pra beijos
nem mesmo esses
de despedida e eu
me despeço-te
te despedaço-me
me perco-te
te peço-me
um pedaço
me pico-te
te peco-me
um pecado
que é tu
aquieto-me

a maré maré

amores são
como marés
altas e bravas
cheias de tormenta
baixas e mansas
águas limpas na areia

amores se vão
e voltam na praia
com a mesma intensidade
e melancolia na borda
viram espuma
– e somem
enchem a orla
e o peito
arrastam-me ao fundo
o mar é traiçoeiro
intento de afogamento

que desespero esse!

nadar e nadar
trombas d’água
joelhos ralados na areia
toda vez que me banho
apaixono-me assim

o mesmo amor
maré cheia

amasso-me
esqueço-te
maré baixa

quando acho que te esqueci
mergulho e percebo que
sempre voltas – e reviravoltas
seu beijo de sal me enche
à lembrança do mar revolto
eis-te maré, nada

constante

ressaca de mar

quando mar azul me abraça
mergulho a calmaria
banho-me na frequência
sua respiração em ondas
maré dos seus afagos
correntes em meu corpo
transita em minhas artérias
arrastando a apatia
espuma na praia da pele
mar que arrebenta
cada rocha do meu ser
desfazendo meu mundo
esculturando-me de novo
repetidas vezes
que fico irreconhecível
pela manhã sou outra
praia limpa e descoberta
natureza bruta que acorda
arde meus olhos
sua maresia que me envolve
respiro lenta
atenta em seu peito

quando mar azul me abraça
eu me calo todo o caos
à deriva em seus beijos de sal

desembarques

sento-me na primeira fileira da montanha russa
com seus letreiros acesos de motel
quinta categoria nas ruas sujas de pinheiros
mochila nas costas sem saber pra onde vai
eu sempre acabo no rio de janeiro
com o peito estourado pelos seus tiros
acendendo mil cigarros e dançando no chão
deitada no chão querendo que você caia
se estrumbique do meu lado e acorde
os números dos quartos sem meia luz
apaga a luz acende meu corpo
dou um trago pra fingir que

embarco novamente e desço em copacabana
doendo o corpo todo e sou torpor
que a gente nunca mais vai se amar
como naquela chuva da madrugada
do mês de novembro com promessas
de não de não de não de não de não
se envolver quando já era tarde

brisa de praia II

se eu fosse peixe, eu mergulhava. mas descobriram que sou ostra, então afundo e engulo os soluços que viram pérola.
minha poesia se chama pérola e o teu beijo se chama areia, que esquecida em meu cativeiro transformou-se em obra prima da natureza. seja areia que te escrevo pérola todo dia e te faço um colar, embora eu que seja a dama. depois me presenteia com essa coleção de versos ululantes que abraçam o mar.

janela acesa no quinto andar

os sonhos jogados pela janela do quinto andar
caíram devagar como roupas sujas
de quem não cabe nas minhas medidas
era você
com seu passo quarenta e dois
estampas de camisetas que me fizeram par
no espelho do elevador
fomos bonitos pra uma pintura moderna
que derrete porque é líquida
aquarela lavada na chuva
do beijo de alguém que amei por engano
de quem roubaria a camisa pra usar de pijama
ou o coração pra acender na minha cabeceira
alumiando a leitura de poemas sujos

sua prosa rançosa me desgastou o cerebelo
perdi o equilíbrio ao andar entre as árvores
comi mais de cinquenta combinações de versos
enquanto mordia sua boca
e você tirava meu pudor como quem recolhe as roupas do varal