diálogo não verbal

nós temos dois diálogos paralelos
no primeiro, está bem claro
só queremos ipês amarelos
no letreiro do motel barato
com suas pilastras coríntias
os cigarros jônicos acesos
você me contempla ainda
falando de todos os medos
eu nos proíbo de falar sério
quero virar outro poema
pra nossa transa ser império
dentro do templo de atenas
nossa falácia incoerente
cheias de nãos contraditórios
proibiu o óbvio da gente
olhares de paradoxo dório
nosso corpo falava ao avesso
quando em silêncio gozamos
não quisemos saber o preço
e pele na pele conversamos
as verdades impronunciáveis
enumeramos os escudos
e os traumas mais irreparáveis
gritamos um amor mudo

missoshiro

uma ostra na panela
em fogo brando até ferver
depois tempera
com missô e cebolinha
e deixa tudo se dissolver
quando servir ainda quente
abra-a ao meio
sua língua morna
por dentro, maciez
e feito uma iguaria me abre
e vem me comer

cê disse que eu era uma ostra,
eu continuo dando sopa

riscos sob dedos

com os olhos fechados, você me lia com as mãos, cheio daquele mesmo cuidado com que manejava seus vinis, passando pelas bordas e, linha por linha, como que só de tocar pudesse ouvir a música, sinto como se eu cantasse dentro silenciosamente pra você acompanhar no seu violão invisível alguma canção que não inventamos ainda, mas que já existe quando nos beijamos, quando nos pegamos, quando nos catamos aos cacos, quando nos quebramos em notas semiafinadas, quando nos ruímos feito prédios antigos ou almas antigas, quando nos chocamos como um acidente de trânsito ou um reencontro cósmico-vascular, quando nos queremos sem que nada impeça, quando perdemos a razão e fechamos os olhos, você me lê com as mãos e está cheio do seu cuidado com que escolhe seus vinis, coloca a agulha sobre as digitais e me toca, me toca, me toca até os ouvidos cansarem com a nossa falta de fôlego.

pouso

quando eu te beijava, voava longe
quando longe ia,
de você, queria
era pousar na sua boca

quanto mais alto o vôo, maior a queda
disseram

se eu caí foi na armadilha
de achar que o perigo era
andar pela contramão
mas o perigo veio
foi de pousar no beijo
e cair em contradição

quando se cai de amores
até o pouso se torna queda

do devir das coisas

pra te comer, em carne e osso
seu corpo fechado que se entumesce
eu preciso primeiro da minha fome

pra te beber, em lágrima e gozo
seu peito aberto que se derrama
eu preciso primeiro da minha sede

pra me penetrar, em ventre e chama
meu corpo fechado que me protege
tu precisas primeiro abaixar o escudo

pra me atingir, em amor e lança
meu peito aberto que se desarma
tu venhas primeiro nu por inteiro

minutos de blues

de repente tudo ficou grave
começamos a ouvir blues
solos de contrabaixo

num instante tudo ficou grave
nos atropelamos por acidente
dirigindo um desejo trôpego

por enquanto tudo era grave
caso de vida ou de morte
na sala de espera hospitalar

por consequência seria grave
se o resultado tocasse blues
e num acidente ela engravidasse