comida

na hora do almoço
todos os dias self-service
verduras murchas e carnes podres
entrava e saía com seu prato vazio
não tinha apetite pela morte exposta
por anos passara pálida e anêmica
ela que era vida pulsante passara fome
sobrevida de sal nas gengivas

até que de bandeja
serviram um corpo inteiro
e apesar de carne e osso
mordeu-o a alma vasta
e fartos seus dentes sorriram

obra-prima celeste

Quando anoitece e o universo silencia, nosso palco se abre sobre a cama, por onde dançamos uma coreografia celestial, um tango fagocitante de labaredas que se engolem quando as estrelas se encontram. Os pincéis em seus dedos e sua língua espalham as cores invisíveis aos olhos humanos, eu me torno um quadro nebulosa enquanto você recita seu poema sobre o meu corpo, com a devoção de mil vozes em uníssono de uma sinfonia inédita. Eu me interpreto em paisagem litorânea, dunas e cânions, sua voz e seus toques desbravam novas trilhas pelo meu ser até desembocarem cachoeiras e oceanos néons. Fechamos os olhos e nos tornamos radiação solar atravessando a existência da matéria com o nosso nome próprio de ontem de hoje e de amanhã. Até o fim dos tempos.

colisão

um vislumbre do nascer
de algum universo
é quase instantâneo
nas chamas frescas dos olhos
o espelho da minha existência 
ecoa uma sinfonia
distorcida pelo tempo-espaço
a travessia de anos-luz
pra que sejamos feitos
carne e osso
a moradia do encontro
de onde
eu talvez te conheça
não há cognição
nem linguagens como essas humanas

o novo

eu – quando espiral
ralo para o caos
mente que vira esgoto
esvazio de sedimentos

um dia minha face outra
folha limpa reflete
rajadas de iridescência
acordo após tantas noites

eu – quando tela
espero na antesala
chega você espalha
tinta cor a esmo

atingida fico viva
pintura acende
cresço o corpo
pra alma caber no seu chamego

tem gente que não bebe

bebo-te na xícara de café
recém coado na vida
embaçando as lentes
um pouco todo dia
bebo-te na limonada
pura e sem açúcar
gole voraz de ácido
desejo rasgando tudo
bebo-te na tônica gelada
que atenua as borboletas
sob fervura no estômago
amargo azul fluorescente
bebo-te sirah e cabernet
bocas que dançam tango
trôpegas e descuidadas
sede que nunca acaba