clarão dos olhos

está claro quando nos fitamos: as luzes acendem
os pulmões acendem grandes fogueiras
pegamos fogo
perdemos o ar
as faíscas sobem pela garganta
queimam as palavras no caminho
o silêncio se incendeia
brilham chamas pelos olhos
ficamos hipnotizados pelo calor

até que piscamos

feito um jato d’água
apagamos o tiroteio de fagulhas
voltamos a respirar fumaça
como se nada tivesse sido dito

mas foi

quando eu digo que vou embora

Estou interessada.

Nas formas desencontradas que as baforadas do cigarro fazem no ar. Elas são como todos esses rodeios, os desvios que pego pra não estar até as quatro ou cinco da manhã na sua companhia. Eu podia ser dona do tempo, colocar no congelador, guardar para as próximas doses um pouco do seu falar arrastado. Dar goles dos seus risos quando me desse sede.

Estou correndo de patins numa grande pista, curvas à direita e à esquerda, dançando com o meu desejo frenético de ser sincera a cada vez que o portão se tranca. Nos buracos, tropeço, despedaço-me no chão de cimento, você me chama pra ouvir sua música. Seus segredos caem como gotas de veneno em meu estômago. Cala essa boca.

Poderia jogar pedregulhos nessa sua cara. Eles beijar-te-iam violentos.

Estou interessada nesse minuto de abraço, no soslaio com que me encara, nos joelhos que se esbarram propositalmente, no beijo em meu ombro frio, nos dedos nos meus cabelos, no que eu digo quando não digo nada. Estou interessada no silêncio que existe nas pausas. Essas pausas.

Estou interessada.

amargo quase beijo

Como se morresse
– de sede
virei-o ali inteiro

veneno

em minha boca
– amargo
mas antes que
pudesse festejar em goles
turvos

interrompeu-me suplicando
que lhe doasse um pouco
da minha morte

eu, confundida
sobretudo pelas luzes,
deixei-me ser roubada
minha boca então dormente
pela meia dose
e silenciada pela sua falta de

violência

não soube dizer
que sim
ou que não,
apenas não morri de frio

perdi os sentidos,
pisquei umas vezes, desacreditada
da sobrenaturalidade dos quase beijos,
que salvam até os olhos
trôpegos do precipício
e as papilas sobreviventes
do risco que foi
cair em sua boca.

a fundo

espetáculo de luzes
cromia e sintonias
não corre assim
na minha direção
como se estivesse deserto
– uma multidão – areia fina
na pele abre erosão
quando explode: estrela
se eu mergulho nos seus cristalinos
cachoeira obsoleta nos olhos
arrepio em noite quente
profundezas onde me perco
seu ser desconhecido treme
nossas buscas translaçadas
reconheço (neste brilho todo
tem me resgatado da escuridão)

afagamento

aos poucos a gente se apaga
no breu da noite anuviada
se apaga
enquanto a bituca se consome em cinzas
se apaga
nos corpos que se tocam misturados
se apaga
quando os olhos fecham
a gente se apaga
quando dorme sem sonhos
se apaga
nos goles largos das canecas etílicas
se apaga
na brasa pela manhã ruidosa
se apaga
a cada tiro pelas narinas
se apaga
quando afoga no choro descontrolado
a gente se apaga
no silêncio que os outros nos calam

aos poucos a gente se acaba
sobretudo no apagamento